domingo, 28 junho, 2026
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Spray de barreira: a invenção brasileira que resolveu um dos problemas mais antigos do futebol

Criado por um inventor mineiro para resolver um problema antigo das cobranças de falta, o spray de barreira se tornou um símbolo do futebol moderno e deu origem a uma disputa judicial milionária contra a Fifa

Antes de sensores na bola, impedimento semiautomático, VAR e inteligência artificial auxiliando árbitros, uma inovação muito mais simples ajudou a transformar o futebol. Ela cabe no bolso, custa poucos dólares e leva apenas alguns segundos para ser utilizada. Com essas características banais, conseguiu resolver um problema que acompanhava o esporte havia mais de um século.

spray de barreira, utilizado hoje em campeonatos ao redor do mundo e presente em todas as Copas do Mundo desde 2014, nasceu a partir de uma ideia simples: criar uma marcação temporária no gramado para impedir que os jogadores avançassem antes da cobrança de uma falta.

A cena é familiar para qualquer torcedor. O árbitro mede a distância da barreira, retira um pequeno tubo preso ao uniforme e desenha uma linha branca sobre o campo. Pouco tempo depois, a marca desaparece sem deixar vestígios. O procedimento se tornou tão comum que poucos se perguntam de onde surgiu a invenção.

A resposta leva até Ituiutaba, cidade do Triângulo Mineiro com pouco mais de 100 mil habitantes. Foi lá que o publicitário Heine Allemagne Vilarinho Dias começou a pensar em uma solução para um problema recorrente do futebol. Apaixonado pelo esporte, ele conta que a inspiração surgiu enquanto assistia a uma partida pela televisão. Durante a transmissão, ouviu um comentário sobre a dificuldade dos árbitros em manter a barreira na distância correta durante cobranças de falta.

A observação ficou na cabeça. Naquele momento, segundo ele, nasceu a ideia de criar uma linha visível que pudesse ser desenhada sobre o gramado e desaparecesse pouco depois. A solução parecia simples, mas resolvia uma dificuldade enfrentada por árbitros desde que a regra da distância de 9,15 metros passou a integrar as leis do jogo.

Sem formação técnica na área, Heine começou a desenvolver o conceito no início dos anos 2000. O produto recebeu o nome de Spuni, uma referência à palavra “espuma”, e passou a ser testado em partidas do futebol brasileiro. Em 2002, a invenção recebeu patente.

A ideia era tão intuitiva que parece surpreendente que ninguém tivesse feito aquilo antes. Em vez de depender apenas da autoridade do árbitro para manter a barreira afastada, bastava criar uma referência visual temporária. Se a linha fosse ultrapassada antes da cobrança, a infração ficaria evidente para todos em campo.

Nos anos seguintes, Heine percorreu federações, realizou demonstrações e buscou convencer dirigentes de que uma simples espuma poderia melhorar a dinâmica do jogo. Em determinado momento, uniu esforços com o argentino Pablo Silva, que também trabalhava em soluções para o mesmo problema. A parceria ajudou a ampliar a presença da tecnologia fora da América do Sul.

Heine Allemagne Vilarinho Dias, brasileiro criador do spray de barreira — Foto: Arquivo pessoal, Reprodução
Heine Allemagne Vilarinho Dias, brasileiro criador do spray de barreira — Foto: Arquivo pessoal, Reprodução

A aprovação oficial veio em 2012, quando a International Football Association Board (IFAB), órgão responsável pelas regras do futebol, autorizou o uso do spray. A decisão abriu caminho para que a tecnologia fosse adotada em competições ao redor do mundo.

Dois anos depois, a invenção brasileira ganharia sua maior vitrine. Na abertura da Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, o árbitro japonês Yuichi Nishimura utilizou o spray pela primeira vez em uma partida de Mundial. Diante de milhões de espectadores, uma linha branca apareceu diante da barreira croata e desapareceu pouco depois. O recurso rapidamente se transformou em uma das novidades mais comentadas daquela edição do torneio.

A batalha pelo reconhecimento

O sucesso nos gramados, porém, não significou o fim da jornada de seu inventor. Após anos trabalhando para popularizar a tecnologia, Heine iniciou uma longa disputa judicial contra a Fifa, alegando uso indevido da invenção e violação de direitos relacionados à patente. O processo foi movido em 2017 pela empresa Spuni Comércio de Produtos Esportivos, ligada ao inventor.

Segundo Heine, a entidade máxima do futebol passou a utilizar o spray em competições internacionais sem um acordo adequado de licenciamento. A discussão se arrastou por anos nos tribunais brasileiros.

Em 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu a favor do inventor e confirmou a condenação da Fifa por uso indevido da tecnologia. A decisão abriu caminho para o cálculo da indenização devida à empresa de Heine. Reportagens da época apontaram valores que poderiam chegar à casa dos R$ 200 milhões, embora a definição final dependa de decis Superior Tribunal Federal (STF).

Enquanto a discussão seguia nos tribunais, a adoção do spray continuou avançando. Hoje, ele faz parte da rotina de árbitros em praticamente todos os grandes campeonatos do planeta. A tecnologia também é utilizada em competições amadoras, torneios de base e ligas nacionais espalhadas por dezenas de países.

Por: Rennan Julio

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