Nova diretriz na liga indiana de críquete acende alerta global, e abre precedente para que outras modalidades profissionais proíbam dispositivos vestíveis discretos com o fim de combater a manipulação de resultados em tempo real
A Unidade de Segurança e Anticorrupção (ACSU) do Conselho de Controle do Críquete na Índia (BCCI) emitiu uma nova diretriz proibindo o uso de óculos inteligentes, óculos de sol com tecnologia integrada e óculos de proteção equipados com recursos de gravação ou comunicação. A proibição é válida para as áreas restritas dos estádios nos dias de jogos da atual temporada da liga.
De acordo com o Indian Express, a medida de urgência foi adotada após a inteligência da liga identificar que diversas empresas de tecnologia estão comercializando e vendendo esses dispositivos diretamente para os jogadores e comissões técnicas da Indian Premier League (IPL), a liga indiana de críquete — o esporte mais popular do país.
O caso abre um precedente para o futuro do esporte profissional. À medida que óculos inteligentes como os vendidos pela Meta, Google e Apple se tornam esteticamente idênticos a acessórios comuns, as ligas enfrentam o desafio de impedir que dados de dentro do campo sejam transmitidos externamente de forma invisível.
Fechando o cerco
A ACSU alertou que os óculos inteligentes atuais possuem capacidade avançada de realizar transmissões ao vivo, enviar e receber mensagens de texto, e efetuar chamadas de áudio e vídeo utilizando redes de dados móveis ou Wi-Fi.
A partir desta temporada, atletas e membros da comissão técnica da IPL são obrigados a depositar os óculos com os Oficiais de Ligação de Segurança assim que entrarem nas zonas restritas, da mesma forma que já fazem com seus smartphones e relógios inteligentes (smartwatches). O descumprimento do protocolo é considerado uma infração grave de segurança e resultará em penalidades baseadas nos regulamentos operacionais da liga.
Vestíveis banidos
A infiltração dos wearables nos bastidores do esporte profissional não é um caso isolado, e já gerou polêmicas em outras modalidades ao redor do mundo.
No beisebol norte-americano, a Major League Baseball (MLB) enfrentou um de seus maiores escândalos em 2017 envolvendo relógios eletrônicos. De acordo com o New York Times, o Boston Red Sox foi multado após utilizar Apple Watches no banco de reservas.
Membros da equipe de apoio assistiam às transmissões de vídeo das câmeras do estádio para decifrar os sinais manuais que os receptores adversários faziam para os arremessadores. Depois, a informação era enviada ao relógio inteligente de um treinador no campo, que a repassava discretamente aos rebatedores. O caso resultou no banimento de qualquer eletrônico com conectividade perto dos gramados da liga americana.
Já no tênis profissional, o caso mais recente aconteceu no Australian Open deste ano. O Independent noticiou que os líderes do ranking mundial Carlos Alcaraz e Aryna Sabalenka foram advertidos e obrigados a retirar suas pulseiras inteligentes da marca WHOOP, que podem ser usadas para monitorar dados biométricos, batimentos cardíacos e recuperação muscular durante os jogos.
A organização do Grand Slam reiterou que qualquer tecnologia vestível de monitoramento é estritamente proibida em quadra, devido ao temor de que dados em tempo real sobre o esgotamento físico do atleta possam ser interceptados de forma ilegal para influenciar o mercado internacional de apostas biométricas — um segmento bilionário e ainda sem regulamentação clara.
Por: Felipe Medeiros*


