sexta-feira, 05 junho, 2026
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Mário Sérgio Cortella: “Cuidado com o líder que não tem dúvidas. Ele não avança, não cria e não inova”

Para o professor e filósofo, o cenário fluido e complexo do mercado de trabalho demanda lideranças intelectualmente humildes

Um líder do futuro é humilde – em especial, intelectualmente humilde. É o que defende Mario Sergio Cortella. “Cuidado com as lideranças que não têm dúvidas. Elas não avançam, não criam e não inovam”, diz o professor e filósofo que se apresentou no palco do evento Transformation Talks, realizado nesta terça-feira (12) pela Robert Half.

Para Cortella, em um cenário marcado por guerras, disputas tarifárias, excesso de informação e mudanças aceleradas, a pior postura possível é agir como se todas as respostas já estivessem prontas. “A certeza só reitera. É a dúvida que inova”, afirmou. “A dúvida é a base da ciência. Muita gente acha que dúvida é sinal de ignorância, quando é exatamente o contrário.”

Ao longo da palestra, o filósofo defendeu que a liderança contemporânea exige menos rigidez e mais capacidade de formular perguntas relevantes. “Liderança firme num mundo fluido é aquela que tem clareza sobre quais dúvidas precisa ter e busca tê-las”, disse. Segundo ele, o excesso de convicção pode aprisionar empresas e profissionais em modelos repetitivos. “Quem não tem dúvida só repete.”

A reflexão veio acompanhada de uma defesa da chamada “humildade intelectual”, conceito que, segundo ele, se tornou indispensável em ambientes complexos e colaborativos. “A pessoa humilde sabe que não sabe tudo e que não é a única que não sabe”, afirmou. Para Cortella, a complexidade do presente impede soluções individuais. “Não nos bastamos. A complexidade exige presença partilhada.”

Nesse contexto, o professor apresentou aquilo que chamou de “três trilhas virtuosas” para lideranças e organizações: generosidade mental, coerência ética e humildade intelectual. A primeira passa por “ensinar o que se sabe”. A segunda, por “praticar aquilo que se ensina”. Já a terceira envolve “perguntar aquilo que se ignora”.

Ao responder perguntas da plateia, Cortella também refletiu sobre o esgotamento das equipes nas empresas. Para ele, líderes precisam diferenciar cansaço de estresse. “O que estressa é o esforço sem sentido”, afirmou. “Quando a pessoa está estressada, não é que ela não queira levantar da cama. Ela não quer ir para aquele lugar.”

Segundo o filósofo, motivação não pode ser “implantada” por um gestor. “Não há como motivar alguém. Há como estimular. Motivação é algo interno, é uma porta que abre de dentro para fora.” Em vez de discursos vazios, afirmou, líderes precisam entender o que faz as pessoas se moverem e o que está bloqueando esse movimento.

E a IA?

A inteligência artificial também apareceu entre os temas centrais da conversa. Cortella defendeu que o avanço tecnológico exige uma pergunta permanente: “É bom para quem?”. Para ele, ferramentas tecnológicas podem ampliar capacidades humanas, mas não substituem experiências fundamentais da convivência.

“Nada substitui o nosso encontro aqui e agora”, afirmou. “A IA ajuda, mas precisamos decidir o que vamos fazer com ela.” Em seguida, o filósofo usou uma metáfora recorrente em suas palestras: “Uma faca pode servir para dividir uma maçã ou para tirá-la de alguém. O problema não é o punhal.”

Ao comentar o choque geracional nas empresas, Cortella afirmou que as novas gerações carregam um senso de urgência maior, algo que pode ser positivo, mas também gerar impaciência e ansiedade. “Pressa não é velocidade”, disse. “Existe hoje uma dificuldade maior de lidar com o tempo de maturação, da espera e do desejo.”

Ainda assim, ele vê potencial de colaboração entre diferentes faixas etárias. “Há muito a aprender com as novas gerações”, afirmou. “Se nos colocarmos no lugar da partilha em vez do desprezo.”

Imagem: Mario Sergio Cortella durante entrevista ao Multishow (2024). Foto: Multishow / Wikimedia Commons / CC BY 3.0

Por: Rennan Julio

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