sexta-feira, 05 junho, 2026
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Antártida está derretendo por baixo mais rápido que o esperado

Cientistas descobrem que estruturas na base do gelo retêm água oceânica quente e aceleram fusão na região oriental do continente.

Cientistas do iC3 Polar Research Hub em Tromsø, na Noruega, descobriram que canais esculpidos na parte inferior das plataformas de gelo da Antártida aprisionam água oceânica mais quente. Dessa forma, o processo intensifica o derretimento nessas estruturas. O estudo foi realizado na Plataforma de Gelo Fimbulisen, no Leste da Antártida.

Os pesquisadores alertam que os modelos climáticos atuais podem estar subestimando a elevação futura do nível do mar. Isso porque esses modelos não capturam o processo identificado pela equipe.

Os pesquisadores alertam que os modelos climáticos atuais podem estar subestimando a elevação futura do nível do mar. Isso porque esses modelos não capturam o processo identificado pela equipe.

De acordo com o ScienceDaily, a descoberta revela um mecanismo até então subestimado que pode estar acelerando a deterioração das plataformas de gelo em regiões consideradas mais estáveis do continente antártico.

Mecanismo de aprisionamento de calor oceânico

A equipe de cientistas identificou um mecanismo que pode estar acelerando a deterioração das plataformas de gelo antárticas. Os canais longos esculpidos na base dessas plataformas conseguem aprisionar água oceânica relativamente quente. Esse aprisionamento intensifica o derretimento em áreas específicas.

A forma da parte inferior da plataforma de gelo atua ativamente aprisionando calor oceânico nos locais onde o derretimento adicional tem maior impacto. Assim, onde existem canais profundos sob o gelo, correntes oceânicas podem formar pequenos padrões de circulação. Esses padrões mantêm a água mais quente presa contra o gelo, em vez de permitir que ela se afaste rapidamente.

As plataformas de gelo são extensões flutuantes de geleiras. Elas ajudam a desacelerar o movimento de grandes quantidades de gelo em direção ao oceano. Ou seja, o formato da parte inferior da plataforma afeta fortemente como a água do mar circula abaixo dela.

Configuração física determina concentração de calor

O fenômeno ocorre devido à configuração física da base das plataformas de gelo. Quando a superfície inferior apresenta canais, essas formações aprisionam o calor oceânico de forma concentrada. A própria estrutura da plataforma de gelo ajuda a determinar onde o calor se concentra e quanto dano esse calor pode causar.

Os canais sob a plataforma de gelo criam um efeito que intensifica o processo de fusão mesmo quando quantidades modestas de água mais quente estão presentes. Dessa forma, esse calor concentrado aumenta o derretimento nessas localizações.

Pesquisa na Antártida Oriental

O estudo foi codirigido por Qin Zhou e Tore Hattermann, do iC3 Polar Research Hub em Tromsø. A pesquisa envolveu uma equipe de cientistas que trabalhou tanto em campo quanto em modelagem computacional.

A descoberta afeta diretamente as plataformas de gelo da Antártida, particularmente aquelas no Leste da Antártida. Essa região mais fria geralmente tem sido vista como menos vulnerável que outras partes do continente. Por isso, o fenômeno tem potencial para impactar globalmente a elevação do nível do mar.

Derretimento aumenta em ordem de magnitude

O derretimento dentro dos canais pode aumentar em aproximadamente uma ordem de magnitude em algumas áreas. Para investigar o processo, a equipe combinou um mapa altamente detalhado da parte inferior da Plataforma de Gelo Fimbulisen com um modelo computacional de alta resolução da cavidade oceânica abaixo dela.

Os pesquisadores testaram bases de plataformas de gelo mais lisas e formações canalizadas mais realistas sob condições oceânicas mais frias e ligeiramente mais quentes. Ao comparar os diferentes cenários, eles conseguiram isolar os efeitos dos canais na circulação oceânica, mistura e derretimento.

Tore Hattermann passou centenas de dias vivendo e trabalhando em plataformas de gelo antárticas durante expedições de pesquisa. Aliás, o estudo também incorporou observações de campo anteriores coletadas na região.

“Observamos sob a Plataforma de Gelo Fimbulisen que mesmo pequenas quantidades de água mais quente podem aumentar substancialmente o derretimento dentro dos canais,” afirmou Tore Hattermann. “Como resultado, os canais podem crescer e, no pior caso, enfraquecer a estabilidade de toda a plataforma de gelo.”

Modelos climáticos não capturam o efeito

Os modelos climáticos atuais não capturam o efeito identificado pelos pesquisadores. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) identificou previamente o enfraquecimento das plataformas de gelo polares como uma grande incerteza nas projeções de elevação do nível do mar e um risco climático potencialmente sério.

Hattermann alertou: “Os modelos climáticos atuais não capturam esse efeito. Isso significa que eles correm o risco de subestimar a sensibilidade das plataformas de gelo ‘frias’ ao longo da costa da Antártica Oriental a pequenas mudanças ou aquecimento nas águas costeiras. Tais mudanças já foram observadas e estão projetadas para aumentar no futuro.”

Além disso, Qin Zhou, que codirigiu o estudo, acrescentou: “O que é impressionante é que mesmo entradas modestas de água profunda mais quente podem ter um grande efeito quando a base da plataforma de gelo é canalizada. Isso significa que algumas plataformas de gelo que os cientistas geralmente consideram frias podem ser mais frágeis do que o esperado.”

Efeito de retroalimentação e perda de estabilidade

Os cientistas alertam que o derretimento intensificado dentro dos canais pode criar um efeito de retroalimentação. À medida que os canais se aprofundam e se alargam, partes da plataforma de gelo podem afinar de forma desigual. Esse processo reduz a estabilidade estrutural geral da plataforma.

À medida que as plataformas de gelo se tornam mais finas e fracas, elas perdem parte de sua capacidade de segurar as geleiras atrás delas. Isso pode permitir que mais gelo terrestre deslize para o oceano, potencialmente acelerando a elevação global do nível do mar. Se as plataformas de gelo enfraqueceram o suficiente, elas podem não mais retardar efetivamente as geleiras que fluem para o oceano atrás delas.

Mudanças nas águas costeiras já foram observadas. Essas alterações estão projetadas para aumentar no futuro. As mudanças também podem afetar os padrões de circulação oceânica e os ecossistemas marinhos ao redor da Antártica à medida que a água de degelo entra no Oceano Austral.

Porém, os pesquisadores afirmam que as descobertas são importantes não apenas para melhorar os modelos climáticos e de camadas de gelo. As descobertas também são relevantes para esforços de planejamento costeiro e adaptação em todo o mundo que dependem de projeções precisas de elevação do nível do mar.

De acordo com os pesquisadores, combinar medições de longo prazo com modelagem avançada é essencial para compreender as características de pequena escala ocultas sob as plataformas de gelo antárticas.

O periódico Nature Communications publicou o estudo.

Fonte: Giz_br

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