Escavações em Motza revelaram pisos de cal dolomítica feitos com uma técnica complexa, antes associada aos romanos milhares de anos depois.
Escavações realizadas em Motza, a oeste de Jerusalém, revelaram uma tecnologia inesperada para o período neolítico. Pisos datados de 7100 a.C. a 6700 a.C. mostram uma técnica de produção de reboco antes atribuída aos romanos, cerca de 8.000 anos depois.
Um piso que reabre a história
O achado, publicado no Journal of Archaeological Science, vem de uma grande ocupação do período Pré-Cerâmico Neolítico B, uma fase anterior ao uso amplo de cerâmica. O local tinha construções extensas, pisos preparados e uma organização técnica que surpreendeu os arqueólogos.
A novidade envolve pisos feitos com cal dolomítica. Esse material usa dolomita, uma rocha diferente do calcário comum. Isso porque a técnica exige controle cuidadoso do fogo, da mistura e da reação com água.
Até agora, a primeira evidência desse tipo de processo vinha da Roma antiga. Assim, Motza empurra essa história para milhares de anos antes.

Estrutura dos pisos de gesso encontrada pelos arqueólogos. Imagem: Journal of Archaeological Science
Por que esse reboco era difícil de fazer
De acordo com o Phys, o reboco de cal calcítica, baseado em carbonato de cálcio, já aparece em construções de 10.000 a 12.000 anos atrás. Civilizações como egípcios, gregos e romanos, por exemplo, usaram esse material depois.
A cal dolomítica complica a receita. Os artesãos precisavam aquecer a dolomita abaixo de 900 °C e manter condições específicas. Não era apenas jogar pedra no fogo.
Ou seja, funcionava como uma receita de forno em que alguns graus e etapas podiam mudar o resultado. Quando dava certo, o material ficava mais resistente e suportava melhor a água.
Dois tipos de piso no mesmo sítio
Os pesquisadores identificaram mais de 100 pisos rebocados em Motza. Alguns pertenciam a fases anteriores e tinham boa preservação, com pigmento vermelho em certas áreas.
Os pisos mais tardios do período Pré-Cerâmico Neolítico B tinham outra aparência. Eles eram mais finos, frágeis e porosos. Porém, revelaram algo tecnicamente mais ousado.
Em um tipo de piso, os moradores trituraram dolomita e adicionaram o material à mistura. Em outro, a dolomita reapareceu como cristais depois do aquecimento e da reação com água.
Esse detalhe indica que os artesãos completaram um ciclo químico complexo, parecido com o ciclo da cal feito a partir do calcário.
Fornos separados mostram domínio técnico
A equipe também encontrou dois fornos rasos em Motza. Eles mediam de 1,5 a 2,6 metros de diâmetro e cerca de 50 centímetros de profundidade.
Dessa forma, um serviu para produzir cal dolomítica. O outro serviu para cal calcítica. Essa separação sugere que os moradores entendiam diferenças entre as rochas e seus processos.
Os autores afirmam que os habitantes de Motza não usaram dolomita apenas como agregado. Eles desenvolveram e aperfeiçoaram seu uso como ligante, apesar das dificuldades técnicas.
Uma tecnologia que sumiu por milênios
O processo parece ter beneficiado a comunidade de Motza. Porém, depois desapareceu do registro conhecido. Isso porque ele só voltou a aparecer em evidências romanas, muito tempo depois.
Mesmo hoje, a reprodução dessa técnica ainda desafia pesquisadores. Por isso, o achado transforma aqueles construtores neolíticos em personagens muito mais sofisticados do que a imagem comum de uma aldeia antiga sugere.
Imagem: Journal of Archaeological Science
Por: Hemerson Brandão


