Empresas que usam IA apenas para eficiência vão melhorar margens. As que usam IA para repensar sua operação vão redefinir seu mercado
A maioria das empresas não está despreparada para a IA por falta de tecnologia — está despreparada pelo excesso de trabalho desnecessário acumulado ao longo dos anos. Guilherme Benchimol fez uma analogia recente de que empreender é como fazer um trabalho de colégio: em um grupo de cinco pessoas, duas fazem o trabalho, uma faz que ajuda e duas atrapalham. À medida que a empresa cresce, a pergunta deixa de ser quem trabalha mais e passa a ser: quantas dessas atividades ainda fazem sentido existir?
Toda empresa que cresce carrega, junto com seu sucesso, a herança silenciosa da ineficiência. Precisamos de toda esta estrutura que carregamos hoje? O que ainda fazemos que não deveríamos mais estar fazendo? O que pode ser feito diferente, agora que o cenário mudou? São processos que nunca mais foram questionados. São reuniões que existem para alinhar o que poderia ser resolvido de forma assíncrona. São relatórios que consomem horas de trabalho e não geram decisão. Essa gordura organizacional não aparece no balanço, mas está em todo lugar.
IA não substitui pessoas. Substitui desperdício.
É a partir dessas reflexões que se abrem espaços para inserirmos aquilo que deveríamos estar fazendo e que ainda não estamos. Sem esse movimento, a tendência é clara: empresas crescem, mas carregam junto estruturas cada vez mais pesadas, caras e improdutivas.
É exatamente nessa lacuna que a IA Generativa encontra seu território mais poderoso.
No artigo anterior desta coluna, tratei do lado humano que as empresas não podem perder para a IA. Agora, vale olhar para o outro lado: o quanto ainda insistimos em manter pessoas em atividades que já poderiam ter sido redesenhadas.
A fórmula corporativa que sempre vigorou (e ainda importa)
Há muito tempo, executivos organizam as empresas a partir de uma lógica clara: políticas, processos e ferramentas. As políticas pavimentam os caminhos, as ferramentas automatizam tarefas, as pessoas tomam decisões e a estratégia determina como as camadas funcionam juntas. É uma equação razoável para um mundo mais estável. Esse mundo está mudando.
A IA Generativa tem o potencial de automatizar atividades que absorvem entre 60% e 70% do tempo dos funcionários hoje, um avanço significativo em relação à estimativa anterior de 50% para tecnologias de automação tradicionais, segundo o McKinsey Global Institute. Ou seja: grande parte do tempo das equipes ainda está alocada em tarefas que não deveriam mais depender exclusivamente de humanos.
Mais do que isso, o impacto é maior justamente em atividades de alto valor, que exigem raciocínio em linguagem natural, análise de informação e síntese de conhecimento. São exatamente as tarefas que os profissionais mais qualificados fazem hoje. Isso não é uma ameaça. É uma oportunidade de redesenho organizacional.
Agentes que planejam, agem e aprendem
Diferente dos modelos de 2023, que primariamente sintetizavam informações, os agentes de IA emergidos em 2025 conseguem planejar ações, processar pagamentos, verificar fraudes e completar operações de entrega de forma autônoma. A diferença entre uma ferramenta e um agente é que a ferramenta espera o comando. O agente age, antecipa, organiza e executa.
Agentes de IA estão começando a conduzir processos de múltiplos passos, como interagir com clientes, processar transações e coordenar ações de acompanhamento. Isso marca uma transição importante: de automação de tarefas isoladas para automação de processos inteiros.
Quando uma organização começa a adotar seus próprios agentes, o design organizacional muda. E é nesse contexto que surge uma pergunta inevitável: o que ainda faz sentido ser feito por um humano?
Que atividades as empresas devem delegar para a IA
A lógica não é substituir pessoas. É liberar as melhores pessoas para o trabalho que só elas conseguem fazer. Para chegar lá, é preciso identificar onde o humano está sendo subutilizado em tarefas que a IA executa com mais velocidade, consistência e escala.
Algumas categorias já mostram resultados concretos:
• Atendimento e suporte ao cliente em primeiro nível. Segundo a McKinsey, em uma empresa com 5 mil agentes de atendimento, a aplicação de IA Generativa aumentou a resolução de problemas em 14% por hora, reduziu o tempo de atendimento em 9% e diminuiu em 25% a solicitação de transferência para supervisores. O atendente humano passa a atuar nos casos de maior complexidade e sensibilidade relacional.
• Geração e qualificação de conteúdo em marketing. Briefings, variações de campanha, relatórios de performance e testes A/B podem ser conduzidos por IA, enquanto o humano atua na direção estratégica.
• Desenvolvimento de software e revisão de código. Usuários do GitHub Copilot completaram tarefas de codificação 56% mais rápido. Não são os programadores que desaparecem, são as tarefas repetitivas que deixam de consumir seu tempo.
• Análise de dados e geração de relatórios recorrentes. Cruzamento de bases, consolidação de KPIs e relatórios periódicos podem ser conduzidos com maior frequência e precisão por IA.
• Triagem e processamento de documentos e contratos. Áreas jurídicas e de compliance já colhem ganhos expressivos com leitura, classificação e resumo automatizado de documentos.
• Planejamento e comunicação interna operacional. Agendamentos, follow-ups, síntese de reuniões e distribuição de tarefas recorrentes. Trabalho operacional que consome tempo de quem deveria estar pensando, não administrando burocracia.
O profissional não some. Ele migra
Este é um dos pontos que muitas empresas erram ao implementar IA: tratam a questão como corte de custos, e não como redesenho de valor. O resultado é perder bons profissionais por falta de visão estratégica sobre como reposicioná-los.
Pense em um profissional com 20 anos de carreira. Suas competências de relacionamento, influência e leitura de contexto não perdem valor com a IA. Pelo contrário, se amplificam.
O desafio real não é tecnológico. É de gestão da transição para um modelo onde humanos e IA atuam de forma complementar.
O que as empresas precisam fazer agora
Algumas empresas que têm conseguido maior desempenho com IA tratam a tecnologia como meio para reestruturar fluxos de trabalho, e não apenas como ganho incremental de eficiência.
Algumas recomendações práticas:
- Faça o mapa das atividades, não dos cargos.
- Identifique onde o humano agrega valor insubstituível.
- Reposicione antes de reduzir.
- Meça o certo.
Sem isso, a adoção de IA vira apenas mais uma camada de complexidade — e não uma solução.
A ineficiência não some sozinha
Já é sabido que empresas que crescem sem questionar sua estrutura acumulam ineficiência. A diferença é que ela não aparece no balanço, mas na velocidade, no custo e na capacidade de resposta ao mercado.
A IA Generativa não resolve isso sozinha. Mas oferece, pela primeira vez, a possibilidade de redesenhar o trabalho em escala. A pergunta não é mais se a sua empresa vai usar IA. É se ela vai usar para cortar custo ou para redesenhar como o trabalho acontece.
Empresas que usam IA apenas para eficiência vão melhorar margens. As que usam IA para repensar sua operação vão redefinir seu mercado. Essa escolha, por enquanto, ainda é humana.
Por: Dagoberto Trento


