Enquanto petrolíferas registram lucros recordes com a alta dos combustíveis, países pobres cortam educação e saúde para absorver o choque nos preços
O conflito no Oriente Médio vai gerar custos adicionais até US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) à economia mundial, enquanto as grandes empresas de petróleo colhem lucros expressivos com a escalada dos preços dos combustíveis. A estimativa, baseada em dados do Fundo Monetário Internacional analisados pela organização climática 350.org, mostra que a distribuição dos riscos e ganhos da crise está longe de ser equilibrada.
Mesmo que o Estreito de Ormuz retome sua operação normal em breve, o impacto econômico acumulado nos preços de energia já deve chegar a cerca de US$ 600 bilhões, informa o The Guardian. Se a disrupção na oferta se prolongar, a conta para famílias, empresas e governos pode superar US$ 1 trilhão e essa projeção ainda não inclui os efeitos em cadeia sobre a inflação, o custo dos fertilizantes, a queda na atividade econômica e o aumento do desemprego.
A Agência Internacional de Energia classificou a situação como “a maior disrupção de oferta da história do mercado global de petróleo”. Pelo Estreito de Ormuz passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e os impactos se estendem para além dos combustíveis: metanol, alumínio, fertilizantes e grafite também tiveram suas cadeias produtivas afetadas, segundo o Fórum Econômico Mundial.
Lucros recordes de um lado, cortes orçamentários do outro
Enquanto países vulneráveis absorvem o choque, as grandes petroleiras não ocidentais anunciam resultados históricos. A BP informou que seus lucros no primeiro trimestre mais do que dobraram em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionados justamente pela alta dos preços do petróleo e do gás associada ao conflito.
Anne Jellema, diretora-executiva da 350.org, afirmou que “as petroleiras vão reportar lucros astronômicos no primeiro trimestre, em boa parte obtidos às custas de uma guerra que já matou milhares e empobreceu milhões”. A organização pede a adoção urgente de um imposto sobre lucros extraordinários, com a receita destinada à proteção social e a investimentos em energias renováveis.
O contraste é mais evidente quando se observa o que acontece nos países mais pobres. Em Malawi, onde a maioria da população já vivia abaixo da linha da pobreza, o governo estuda cortar o orçamento da educação para honrar pagamentos de dívida diante do aumento das despesas com combustíveis. No Gana, o diretor técnico do ministério de mudanças climáticas alertou que “muitos países africanos enfrentam o colapso se a crise continuar por mais de seis meses”.
Vários governos africanos reagiram à alta dos preços cortando impostos sobre combustíveis, o que reduziu suas receitas para saúde, educação e infraestrutura e, na prática, transferiu recursos públicos para as petrolíferas.
O problema tem raízes anteriores ao conflito. O grupo Planetary Guardians, formado por ex-chefes de Estado, cientistas e ativistas, calculou que, antes mesmo da guerra, os governos gastavam US$ 1,9 milhão por minuto, ou cerca de US$ 1,05 trilhão por ano, em subsídios ao setor de combustíveis fósseis.
Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e integrante do grupo, resumiu o paradoxo: os cidadãos pagam três vezes — no posto de gasolina, por meio dos impostos e pelos danos à saúde pública e ao meio ambiente causados pelos combustíveis fósseis.
A distorção desses subsídios também é evidente: para cada dólar gasto diretamente em subsídios a combustíveis, os 20% mais pobres recebem apenas 8 centavos, enquanto os 50% mais ricos, que consomem mais carros, ar-condicionado e aviação, capturam quase 75% dos benefícios. O fim desses subsídios, segundo o grupo, evitaria 70 mil mortes prematuras por poluição do ar por ano.
O que está em debate em Santa Marta
Ao mesmo tempo em que os números de lucros das petrolíferas chegam ao mercado, delegados de mais de 50 países se reúnem na Conferência de Santa Marta, na Colômbia, o primeiro encontro global dedicado à transição para fora dos combustíveis fósseis. A pauta inclui renegociação de dívidas e mecanismos para financiar a migração para renováveis, especialmente nos países mais vulneráveis.
A UNCTAD apontou que as perturbações no Estreito de Ormuz expõem a fragilidade de pontos estratégicos do comércio marítimo global e a capacidade desses gargalos de transmitir choques por cadeias produtivas inteiras, um argumento que reforça, segundo delegados presentes ao encontro, a urgência de reduzir a dependência estrutural do petróleo.
As Ilhas Marshall declararam estado de emergência de 90 dias em março. O governo local passou a encerrar suas atividades às 15h para economizar energia. Chipiliro Mpinganjira, vice-ministro de recursos naturais de Malawi, foi direto: “Mesmo que o Estreito de Ormuz reabra, sabemos que isso pode acontecer de novo a qualquer momento. Precisamos, definitivamente, nos afastar dos combustíveis fósseis.”
Por: Diogo Rodriguez


