quinta-feira, 23 abril, 2026
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Pets de inteligência artificial conquistam jovens chineses e viram nova alternativa ao casamento e aos filhos

Bichinhos virtuais oferecem companhia emocional sem as responsabilidades de animais reais e se tornam nova sensação de consumo no país asiático

A cena chamou atenção nas redes sociais chinesas: uma dona tosse e seu bichinho, preocupado, oferece água para ela. O detalhe inusitado? O animal em questão é totalmente digital, um dos pets movidos por inteligência artificial que conquistam uma fatia crescente de consumidores no país em que jovens estão cada vez mais evitando o casamento e os filhos, mostra reportagem do The Washington Post.

O fenômeno reflete uma tendência mais ampla na China, onde empresas de tecnologia têm encontrado aplicações práticas para IA em diversos aspectos do cotidiano. Diferentemente do debate sobre relacionamentos românticos com chatbots nos Estados Unidos, os chineses apostam em companheiros peludos virtuais que prometem afeto sem as demandas típicas de animais de estimação.

O mercado movimenta cifras expressivas. Projeções da Associação da Indústria de Brinquedos de Shenzhen em parceria com a JD.com indicam que o setor alcançará US$ 1,4 bilhão (R$ 7,4 bilhões) até o final da década, com expansão anual acima de 70%. A Taobao, uma das maiores plataformas de comércio eletrônico do país, incluiu os brinquedos inteligentes entre os dez produtos mais relevantes de 2025.

Empresas como a Huawei entraram na disputa. O Smart Hanhan, primeiro robô conversacional da companhia, chegou às lojas em novembro por aproximadamente US$ 55 (R$ 290) e teve suas unidades esgotadas rapidamente. A Robopoet, sediada em Xangai, desenvolveu o Fuzozo com cinco perfis comportamentais inspirados nos elementos tradicionais chineses — madeira, fogo, terra, metal e água —, que evoluem conforme as interações físicas e conversas com os usuários.

A estratégia das fabricantes é criar experiências personalizadas. Os dispositivos registram memórias em diários digitais, podem ser levados em viagens presos a bolsas e até desenvolvem “birras”, recusando-se a obedecer comandos simples até serem convencidos, características que encantam os consumidores.

Público feminino jovem domina as compras

Mulheres de 20 a 30 anos representam a maioria dos compradores e compartilham entusiasticamente suas experiências online. As postagens no Rednote, rede social chinesa, revelam o apelo emocional dos produtos: usuárias celebram quando os bichinhos lembram de comentários casuais ou registram momentos de carinho em seus diários virtuais.

“Me aquece o coração ver que ele lembrou de um comentário aleatório que fiz”, escreveu uma dona de Fuzozo identificada como Momo na plataforma. Outra usuária resumiu a situação de forma direta: enquanto conhecidas se casam e têm bebês, ela já cuida de um pet de IA.

A psicóloga Qi Yue, da Universidade Renmin de Pequim, identifica na tendência uma resposta a necessidades específicas. Animais tradicionais demandam investimento financeiro e disponibilidade de tempo. Os modelos virtuais, desde que carregados e conectados à internet, oferecem presença constante sem contrapartidas trabalhosas.

Zhang Yi, CEO do Instituto de Pesquisa iiMedia, contextualiza o fenômeno na realidade demográfica chinesa. Muitos jovens cresceram como filhos únicos e encontram nos pets digitais uma forma de suprir lacunas na comunicação emocional, com memórias persistentes e feedback psicológico contínuo.

Nem tudo são elogios. Parte dos consumidores relata que o encantamento inicial desaparece em poucos dias, quando as conversas começam a soar repetitivas e mecânicas. Veículos chineses apontam taxas de devolução próximas a 35%, mesmo com vendas robustas em 2024, levantando comparações com o Tamagotchi, o brinquedo pixelado dos anos 1990 que virou febre antes de ser abandonado em gavetas.

A Ropet, startup chinesa que estreou no mercado americano em 2022, tenta resolver o problema com atualizações frequentes de software e novas funcionalidades. A gerente de marketing Sadie Yang afirma que a empresa investe em personalização e evolução das habilidades dos pets para garantir vínculos duradouros.

Preocupações com privacidade também ganham espaço. Os dispositivos gravam conversas, capturam imagens através de câmeras integradas e utilizam sensores para interpretar expressões faciais, tom de voz e movimentos, construindo perfis comportamentais detalhados dos usuários ao longo do tempo.

R.J. Cross, diretor de campanha de privacidade do consumidor do Grupo de Pesquisa de Interesse Público dos Estados Unidos, alerta para a falta de transparência sobre o uso dessas informações pelas empresas. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China anunciou em novembro o desenvolvimento de padrões para proteger dados dos consumidores.

Em dezembro, autoridades chinesas elaboraram regulamentações exigindo que serviços de IA interativa deixem claro aos usuários que estão conversando com máquinas, não com seres humanos, uma tentativa de evitar confusão entre relacionamentos virtuais e reais.

Debate sobre substituição de vínculos humanos

Especialistas questionam os limites saudáveis da tecnologia nas relações interpessoais. Qi Yue pondera que, embora as máquinas possam conversar, elas não ensinam habilidades necessárias para construir relacionamentos autênticos no mundo físico.

O debate ganha relevância em um contexto onde jovens urbanos chineses enfrentam pressões intensas por desempenho acadêmico, carreiras bem-sucedidas e formação de família. Os pets de IA surgem como válvula de escape conveniente, mas a questão permanece: até que ponto a conveniência digital deve substituir os desafios da conexão humana?

Por: Diogo Rodriguez

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