quinta-feira, 23 abril, 2026
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Wikipedia firma acordo com Microsoft, Meta e Amazon, que vão usar seu conteúdo para treinar IA. Veja os pontos controversos

Parceria também foi firmada com as startups Perplexity e Mistral. Google já usa informações da enciclopédia on-line desde 2022

A Wikipedia anunciou novas parcerias comerciais com Microsoft, Meta, Amazon e startups de inteligência artificial (IA) como a americana Perplexity e a francesa Mistral para permitir o uso de seus dados para treinamento de modelos de IA em troca de pagamento.

Este é um passo inédito da Fundação Wikimedia, operadora da enciclopédia on-line, para transformar em receita a crescente dependência das grandes empresas de tecnologia em relação a seu conteúdo.

O movimento marca uma mudança relevante no modelo de financiamento da Wikipedia, que historicamente depende de doações do público. Com o avanço da inteligência artificial generativa, empresas passaram a utilizar em larga escala os mais de 65 milhões de artigos da enciclopédia digital, disponíveis em mais de 300 idiomas, como base de dados para treinar seus sistemas.

Desde 2022, a fundação já mantinha um acordo com o Google, da Alphabet, e agora amplia sua estratégia ao oferecer um produto corporativo específico para empresas de tecnologia. A solução permite que companhias tenham acesso estruturado ao conteúdo sob pagamento, garantindo previsibilidade de receita para a Wikimedia.

Em entrevista à Reuters, a presidente da Wikimedia Enterprise, Lane Becker, destacou que a ideia da parceria é que as empresas passem a contribuir financeiramente para a sustentabilidade do ecossistema que alimenta seus próprios produtos.

Hoje, cerca de 250 mil editores voluntários em todo o mundo são responsáveis por escrever, revisar e checar os conteúdos da plataforma, o que frequentemente levanta dúvidas sobre a precisão das informações nos verbetes.

Maior estabilidade

A Fundação Wikimedia anunciou ainda a nomeação de Bernadette Meehan, ex-embaixadora dos Estados Unidos no Chile, como nova diretora-executiva da organização. Ela assume o cargo a partir de 20 de janeiro.

A fundação argumenta que o novo modelo pago ajuda a preservar a gratuidade para usuários comuns, ao mesmo tempo em que cria uma fonte estável de financiamento para manter a operação.

Para as empresas de tecnologia, a parceria também tem valor estratégico. Segundo Tim Frank, vice-presidente corporativo da Microsoft, o acesso a dados confiáveis é essencial para o desenvolvimento dos modelos de IA.

Especialista aponta controvérsias

Para Sydney Sanches, presidente do conselho de Propriedade Intelectual da Federação das Câmaras de Comércio Exterior, o acordo que vai permitir que Microsoft, Meta e Amazon usem conteúdo da Wikipedia para treinarem seus chatbots de IA traz uma série de problemas, e vai levantar questionamentos de produtores dos mais diversos tipos de conteúdo.

— De largada, o acordo representa um desvirtuamento da proposta original da Wikipedia de ser um espaço “encicoplédico” elaborado de forma colaborativa, de maneira aberta. Isso não garante a segurança integral das informações — destaca o advogado. — Mas, com isso, a Wikipedia sempre teve a parcimônia da indústria criativa. Autores das mais diversas áreas disponibilizaram artigos sonoros, literários e jornalísticos.

Essa relação com produtores de conteúdo, continua ele, foi alimentada sobretudo pelo fato de a Wikipedia ter uma finalidade informativa mais evidente do que a comercial. Com o conteúdo habilitado a ser objeto de um negócio, diz Sanches, a coisa muda.

— As big techs estão pagando para ter acesso ao conteúdo da Wikipedia. Para titulares de conteúdos protegidos, há um desvirtuamento muito grave. A lei de propriedade intelectual é muito clara nesse sentido. Quando o produtor entrega uma licença gratuita (para exibição de seu conteúdo), ela é muito específica, e não para o que se quiser fazer e para comercialização. Nunca com a perspectiva de alimentar negócios de terceiros e sem gerar um centavo para quem criou esses conteúdos.

Para ele, as duas consequências desse movimento serão:

  • De um lado, o treinamento de chatbots com base em informações que não são inteiramente seguras e que serão depois fonte de dados para consultas globalmente pode gerar desinformação.
  • De outro, a associação vai puxar vários questionamentos, como a preservação da qualidade do que os usuários consome e também a demanda pela garantia dos direitos autoriais de quem produz conteúdo exibido pela plataforma colaborativa.

— O uso do conteúdo fora do combinado não pode gerar prejuízo injustificado para o autor. As empresas da indústria criativa e da informação já litigam com as gigantes de tecnologia, que desenvolvem e treinam seus sistemas de inteligência artificial com finalidade comercial. Não há opção de composição sem resistência — conclui Sanches.

Foto: Reprodução/Wikipedia

Fonte: O Globo

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