Varda Space Industries superou barreiras técnicas e regulatórias para fabricar cristais farmacêuticos em microgravidade e iniciar uma nova frente para a indústria farmacêutica
A startup de ciências biológicas Varda Space Industries, dos Estados Unidos, alcançou um marco inédito ao fabricar medicamentos no espaço e trazê-los de volta à Terra. A conquista não apenas a tornou uma das vencedoras do prêmio anual Feira de Ciências Gizmodo 2025, mas também abriu uma nova fronteira para a indústria farmacêutica.
No início do ano passado, a Administração Federal de Aviação (FAA) concedeu à Varda uma licença de reentrada Parte 450. Desde então, ela lançou suas fábricas espaciais em órbita. Até o momento, realizou três missões. A quarta está atualmente em andamento e, a quinta, está planejada para ocorrer ainda este ano.
A primeira cápsula, a W-Series 1, foi lançada em junho de 2023 a bordo da missão de transporte compartilhado Transporter 8. da SpaceX. Nessa cápsula, que ficou acoplada à nave espacial Photon da Rocket Lab em microgravidade, foi produzido o ritonavir, medicamento usado para tratar o HIV.
Embora a missão tenha sido um sucesso, enfrentou obstáculos. “Não tínhamos uma licença de reentrada na época”, contou Delian Asparouhov, presidente e cofundador da startup, ao Gizmodo.
Na época, a Força Aérea dos Estados Unidos negou o pedido de Varda para pousar a cápsula em uma área de treinamento em Utah. Além disso, a FAA reteve a aprovação de reentrada, o que deixou o dispositivo preso no espaço por meses.
“Estar em órbita todos os dias é um resultado assustador, pois em um dia há um risco limitado de o veículo dar errado, mas ao longo de oito meses, você está apenas somando uma série de riscos. Um componente pode falhar, um micrometeorito pode atingir [a cápsula]”, acrescentou Asparouhov.
“E não poderíamos realmente fazer mais progressos em engenharia, porque qual o sentido de preparar um segundo, terceiro e quarto veículo para voar quando o primeiro está basicamente preso lá em cima?”
No dia 21 de fevereiro deste ano, a cápsula pode finalmente retornar para a Terra. E esse momento marcou a primeira recuperação de uma nave espacial intacta, com seus cristais produzidos no espaço, por uma empresa comercial.
“Sempre que você é o primeiro em algo, e o primeiro em algo que também é um setor regulamentado e conhecido, como o aeroespacial, porque há perigos envolvidos, sempre será complicado”, apontou Eric Lasker, diretor de receita da Varda e membro da equipe fundadora. “Até que você tenha uma empresa que esteja tentando seguir o caminho que você traçou, você quase não sabe onde estão as peculiaridades, porque aprende muito ao passar por esse primeiro processo.”
Medicamentos mais eficazes
Como destaca o Gizmodo, a Varda foi fundada com base na crença de que havia oportunidades na indústria aeroespacial além dos lançamentos de foguetes. O que a empresa buscava não apenas ir ao espaço, mas também trazer algo de volta.
Sendo assim, pesquisas foram conduzidas sobre a fabricação de vários materiais no ambiente de microgravidade a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), o que elimina a influência da gravidade na flutuabilidade e na convecção.
“Digamos que você tenha uma lâmpada de lava; ela se espalha para cima e para baixo, ou se você colocar pimenta na água, ela afunda e começa a colidir uma com a outra. Isso simplesmente não acontece na microgravidade, então, em nível molecular, se você tiver algumas moléculas que estão se deslocando para baixo devido à força da gravidade, elas vão se cristalizar de uma maneira diferente do que se estivessem apenas na microgravidade”, comentou Lasker.
Para a indústria farmacêutica, o ambiente de microgravidade demonstrou produzir melhores cristais de proteína do que os produzidos na Terra. Segundo o Gizmodo, a fabricação desses cristais no espaço tem o potencial de criar doses mais eficazes e concentradas de medicamentos. “Você nunca tomaria um medicamento só porque ele foi feito no espaço, mas porque ele funciona melhor”, argumentou o diretor de receita da Varda.
Indústria de manufatura orbital
Primeira empresa a adquirir uma licença de reentrada em espaçonaves, a startup foi premiada pelo Gizmodo por ser inovadora e pioneira. “Foi muito emocionante ver a transição do que era originalmente uma missão hipotética, meio maluca e única para agora — parece que é algo que é uma operação consistente”, indicou Asparouhov.
Lasker complementou: “Essa indústria de manufatura orbital é algo em que muita gente já pensou, desde os primórdios da indústria espacial, e acho que temos a sorte de sermos os primeiros a dar um salto qualitativo”.
Com sua quarta cápsula em órbita, e a quinta preparada, a Varda já planeja lançar duas espaçonaves na mesma missão e operá-las simultaneamente. “No ano seguinte, teremos nossa primeira missão com três de cada vez e, a partir daí, continuaremos a crescer”, enfatizou Asparouhov. “Em algum momento, poderemos ver um Falcon 9 completo, basicamente só com a Varda por toda parte.”
Quanto a quando os consumidores terão acesso aos medicamentos produzidos no espaço, ele disse que prevê que os primeiros ensaios clínicos ocorrerão perto do final da década. “Portanto, ainda temos um longo caminho pela frente, mas é emocionante ver essa transição do que antes eram apenas artigos acadêmicos para algo que acreditamos ter um caminho claro para a comercialização”, celebrou.
E Lasker concordou: “Levará algum tempo até que você e eu estejamos em casa com uma caixa contendo algo que foi feito no espaço, mas o caminho para chegar lá está bem claro à nossa frente”.
Por: Renata Turbiani


