segunda-feira, 27 abril, 2026
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Quase R$ 6 bilhões em pó: como o Flip tentou desafiar o TikTok e faliu em poucos meses

Startup chegou ao topo da App Store com app de vídeos e atraiu criadores com investimentos milionários, mas não resistiu a mudanças políticas e gastos elevados

Em janeiro, com a possibilidade do TikTok ser banido nos Estados Unidos, o app de vídeos e compras Flip entrou no top 5 do ranking da App Store da Apple. Naquele mês, os downloads aumentaram 855% e, logo na sequência, a plataforma foi avaliada em US$ 1,1 bilhão (aproximadamente R$ 5,9 bilhões).

Corta para o segundo semestre do ano, e o cenário é outro: o aplicativo faliu. Tudo começou com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender a proibição do TikTok, relata o Business Insider. Diante disso, os criadores do Flip investiram em anúncios e lançaram um fundo de ações de US$ 100 milhões (R$ 538,9 milhões) para atrair criadores.

Em abril, as tarifas impostas por Trump aumentaram os custos para alguns fornecedores e parceiros da startup, que, então, fez demissões e começou a esvaziar a sua sede em Los Angeles. No mês seguinte, o Flip recebeu uma notificação de despejo.

Em junho, saiu do top 100 da App Store dos Estados Unidos e, em poucas semanas, mandou embora grande parte dos funcionários restantes. No final de agosto, app foi encerrado.

“Fiquei chocado quando a última rodada de demissões aconteceu e a rapidez com que tudo se dissolveu”, disse um ex-funcionário ao BI. “Este ano, houve conversas muito otimistas sobre para onde estávamos indo e a ideia de que isso se tornaria enorme.”

De sonho a pesadelo

O Flip foi lançado em 2019 por Noor Agha e Jonathan Ellman. A ideia de negócio original era uma rede social onde os clientes recebiam roupas pelo correio, tiravam fotos e pediam para outros usuários votarem em quais itens eles deveriam comprar.

Na época, como relata o BI, a tecnologia da moda estava em alta, e alguns empreendedores estavam de olho na indústria de compras sociais da China e considerando como poderiam replicá-la nos Estados Unidos. Além disso, o TikTok ainda não tinha lançado a ferramenta Shop na terra do Tio Sam.

Em agosto de 2021, o Flip anunciou sua rodada Série A de US$ 28 milhões (R$ 150,9 milhões), e passou de testes para avaliações de produtos geradas por usuários e vídeos de compras ao vivo. Quatro meses depois, lançou um programa para criadores que pagaria comissões sobre as vendas geradas por meio de seus vídeos.

O negócio ia bem, tanto que, em julho de 2022, a empresa noticiou que expandiu sua base de usuários em 500% no primeiro semestre daquele ano e fez uma rodada Série B de US$ 60 milhões (R$ 323,3 milhões), com uma avaliação de US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões).

Também em 2022, se mudou para um prédio de três andares no bairro de El Segundo, em Los Angeles. Apesar do espaço, o quadro de funcionários foi mantido enxuto.

“Era uma vibe de startup muito intensa”, contou um ex-funcionário. “As pessoas que trabalhavam lá estavam totalmente engajadas.”

Para continuar crescendo em 2023, o Flip investiu em indicações, oferecendo créditos no aplicativo, às vezes de US$ 100 (R$ 538,9), para que novos usuários se inscrevessem. Em 2024, levantou mais US$ 144 milhões (R$ 776 milhões) em outra rodada de financiamento e dobrou sua avaliação para cerca de US$ 1,1 bilhão (R$ 5,9 bilhões).

Também em 2024, firmou parceria com o AppLovin para impulsionar anúncios de marcas; adquiriu a Curated, plataforma que conectava compradores a especialistas para aconselhamento sobre grandes compras, e lançou um novo conjunto de vídeos sem compras chamado Clips.

Quando o governo americano informou sobre a iminente proibição do TikTok, o app destinou US$ 100 milhões (R$ 538,9 milhões) ao seu “Fundo de Criadores Fundadores” e ainda investiu pesado em publicidade.

Mas uma combinação de custos de aquisição de usuários e obstáculos macroeconômicos prejudicaram a iniciativa do Flip de enfrentar o TikTok Shop.

“No final das contas, era simplesmente insustentável porque eles tinham custos muito altos de aquisição de clientes, bem como custos de retenção de clientes”, observou Sky Canaves, analista principal da área de varejo e e-commerce da EMARKETER, ao BI.

E, como Trump adiou a proibição do TikTok diversas vezes, a busca desesperada por uma alternativa perdeu a urgência. “É realmente desafiador para novos aplicativos se destacarem”, acrescentou Canaves. “Acho que eles tiveram dificuldade para escalar da maneira que queriam.”

Em agosto deste ano, a Flip fez uma postagem anunciando que a sua missão de construir uma “plataforma social que desse voz a todos” havia chegado ao fim, mas não informou a razão.

No mesmo comunicado, também afirmou ter alcançado 16,5 milhões de pessoas, ultrapassado 5 bilhões de visualizações de vídeos, pago US$ 13,4 milhões (R$ 72,2 milhões) a criadores e gerado US$ 375 milhões (R$ 2 bilhões) em vendas para marcas.

O encerramento pegou alguns parceiros desprevenidos e deixou os funcionários consternados. Mas Tara Blair Ball, criadora do Fundo de Criadores Fundadores do app, salientou que a desativação “não foi surpresa”. “Não acho que fizesse sentido como eles estavam ganhando dinheiro para justificar o pagamento que estavam dando”, complementou.

O Business Insider procurou representantes da empresa para comentar, mas não teve retorno.

Por: Renata Turbiani

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