Não se trata de substituir profissionais pela tecnologia, mas de potencializar suas capacidades por meio da integração com a inteligência artificial, machine learning e automação
Apesar dos avanços no uso de tecnologias digitais dos últimos anos, boa parte do trabalho de uma pessoa é gasto em atividades de baixo valor. De acordo com dados do relatório NTT DATA Technology Foresight 2025, colaboradores dedicam 20% do tempo buscando informações e 28% gerenciando e-mails – ou seja, quase metade do dia em atividades de baixa produtividade. O impacto é mensurável: reduzir apenas 30 minutos diários em atividades improdutivas como essas apontadas pode gerar uma economia de mais de 1,5 milhão de euros ao ano para uma empresa de até 1.000 colaboradores.
É diante desse desafio — e dessa oportunidade — que a inteligência artificial se posiciona como uma alavanca real para a produtividade. Mais do que promessas futuristas, suas aplicações já estão redefinindo como trabalhamos e abrindo caminho para a ascensão dos humanos aprimorados. Não se trata de substituir profissionais pela tecnologia, mas de potencializar suas capacidades por meio da integração com a inteligência artificial (IA), machine learning e automação. O futuro do trabalho será colaborativo e disso já sabemos — no entanto, o avanço da inovação dependerá da habilidade de construir essa parceria com responsabilidade e propósito.
A integração de tecnologias como IA Generativa (GenAI), assistentes virtuais especializados e ambientes de trabalho assistidos por IA transforma radicalmente a dinâmica operacional. Já as aplicações de Retrieval Augmented Generation (RAG) aumentam a eficiência da busca por informações, enquanto personas digitais (também chamados de avatares de IA) já atuam no atendimento ao cliente com detecção de emoções em tempo real.
Dentro desse movimento, a eficiência operacional surge como um dos principais pilares dessa transformação. Com o suporte de assistentes de IA, análise preditiva e automação de processos, tarefas repetitivas são delegadas à tecnologia, liberando os profissionais para focar em atividades estratégicas, inovação e relacionamento com clientes. Não apenas o tempo é otimizado — a qualidade das entregas e os resultados também são potencializados. Organizações que abraçam esse modelo relatam ganhos expressivos em produtividade, qualidade e agilidade.
Estudos recentes mostraram que o uso de IA possibilitou não apenas as pessoas serem mais criativas, como também contribuíram para a democratização da inovação. A IA promoveu o pensamento divergente, conectando conceitos distantes e estimulando a criatividade; desafiou os vieses dos especialistas, indo para além das suas suposições sobre o que é possível; apoiou na avaliação de ideias, combinando ideias e trazendo sugestões mais robustas e coerentes, bem como facilitou a colaboração entre usuários no desenvolvimento de novos produtos e soluções.
Transição justa e liderança preparada: os pilares para um futuro colaborativo
Não podemos esquecer o impacto da tecnologia na transformação de funções e atividades. Segundo o World Economic Forum a IA irá criar, até 2030, 170 milhões de novos empregos – e, ao mesmo tempo, eliminará 92 milhões postos de trabalho. Ainda que o saldo seja positivo em 78 milhões de empregos, a sociedade não pode dar as costas para os quase 100 milhões de pessoas que perderão seus empregos. É inegável a necessidade de um trabalho conjunto da sociedade, governo, setores da educação e organizações privadas para que essas pessoas possam passar por um processo intenso de upskilling e reskilling.
As organizações que estão realizando o valor no investimento em IA têm o fator humano e cultural, lado a lado com a tecnologia, no coração de sua estratégia. Elas investem na preparação da liderança para que eles compreendam como IA opera, o que faz bem e suas limitações. Os líderes são exemplo e encorajam o seu uso pelos colaboradores.
O entusiasmo por IA também suscita o medo de ser visto como redundante ou menos competente. Essas empresas não deixam a adoção das soluções habilitadas por IA ao acaso. São intencionais e investem em programas de adoção em escala, na qual utilizam uma abordagem estruturada de gestão da mudança, trabalhando no âmbito organizacional e no indivíduo para que a IA potencialize a sua força de trabalho.
À medida que a colaboração humano-máquina se fortalece, um novo perfil de força de trabalho se consolida: são os profissionais que combinam inteligência emocional, pensamento crítico e domínio tecnológico. Empresas que entenderem essa dinâmica não apenas inovarão mais rápido como também criarão ambientes de trabalho mais inclusivos, sustentáveis e resilientes.
Um exemplo disso são empresas que investiram em programas de adoção de ferramentas produtividade habilitadas por IA e chegaram a reportar um ROI de 320% sobre o investimento nas soluções tecnológicas e preparação das pessoas. O impacto positivo foi além do ROI. A experiência do empregado com a IA chegou a 80% de retorno favorável e o coeficiente de adoção foi de 81%.
Apesar de todo o potencial, ainda existem desafios consideráveis. O primeiro deles é a maturidade organizacional, considerando que muitas empresas ainda não têm estrutura, cultura ou liderança preparada para incorporar essas novas formas de interação homem-tecnologia. A inovação acaba sendo isolada, sem integração com o negócio.
Outro ponto é a resistência cultural, que não pode ser subestimada. Ainda existe um certo receio em relação à substituição de funções, à invasão de privacidade e à dependência da tecnologia. Esse receio muitas vezes paralisa projetos promissores. E há também desafios técnicos, como a falta de interoperabilidade entre sistemas, a baixa qualidade de dados e o custo inicial elevado de algumas tecnologias emergentes.
O futuro não é uma disputa entre humanos e máquinas — é uma oportunidade inédita de colaboração. Mas essa parceria só prosperará se for pautada pela responsabilidade, pela transparência e pelo respeito ao valor humano. É nesse equilíbrio que reside o verdadeiro potencial transformador da tecnologia.
Claudia Akemi Umemura é diretora de Talent & Transformation da NTT DATA e Daniela Griecco é diretora de Data & Analytics da NTT DATA
Por: Claudia Akemi Umemura e Daniela Griecco


