Saiba como ela integra biotecnologia, inteligência artificial e cultura alimentar em um portfólio que movimenta 27 bilhões de euros por ano
Na Danone, inovação alimentar não é mais sobre sabor ou embalagens, mas sobre impacto fisiológico e dados microbiológicos. É esse o eixo estratégico da empresa sob a liderança da belga Isabelle Esser, 62 anos completados em junho, diretora-geral global de Pesquisa, Inovação, Qualidade e Segurança Alimentar da companhia desde abril de 2022; e desde o final de 2024 ela também é Chief Human Resources Officer, acumulando o comando sobre ciência e a cultura organizacional. Isabelle responde diretamente a Antoine de Saint-Affrique, CEO Global da Danone, e é uma das três mulheres que faz parte do board executivo.
“Hoje, mais de 35% do nosso negócio está na área de nutrição médica. E a ciência mostra, cada vez mais, que a saúde começa pelo alimento. É isso que está redesenhando nosso portfólio”, afirmou. A francesa Danone faturou 27,376 bilhões de euros em 2024 (R$ 176,96 bilhões na cotação atual) e atualmente investe em pesquisa e desenvolvimento cerca de 400 milhões de euros (R$ 2,34 bilhões) por ano.
Com mais de 30 anos de carreira no setor de bens de consumo, Esser é uma das vozes mais influentes da indústria europeia voltada à aplicação da ciência dura à formulação de alimentos, o que significa decisões de inovação não apenas baseadas em tendências de consumo, mas em evidências científicas sólidas e tecnologias validadas, como estudos sobre microbioma, fermentação, metabolismo proteico e bioabsorção de nutrientes.
Doutora em química pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e engenheira de materiais pela Universidade de Louvain-la-Neuve, na Bélgica, ela comanda um time global que atua na fronteira entre biotecnologia, microbiologia e alimentação funcional. Somente doutores, no centro de Paris-Saclay, são 450.
Seu diagnóstico sobre tendência é claro: a próxima revolução alimentar virá da ciência e da cultura. E a Danone quer estar posicionada no cruzamento dessas duas forças. “Toda comida está ancorada na cultura local. As pessoas querem sabor, memória afetiva, reconhecimento. Mas é a ciência que viabiliza a entrega de saúde por meio desses alimentos”, disse à Forbes na sede da empresa, em Paris.
Da fermentação à longevidade, o alimento vira terapia
O microbioma intestinal ocupa hoje o centro das atenções nos laboratórios da Danone, com centros de pesquisa avançados em Saclay, mais o de Utrecht, no Holanda. Segundo Esser, produtos fermentados como iogurtes com probióticos são apenas o início de uma tendência muito maior: a da “alimentação baseada em bióticos”. Isso envolve probióticos, prebióticos (fibras que alimentam as bactérias), pós-bióticos (componentes gerados no processo metabólico dos microrganismos) e sua influência direta na inflamação, absorção de nutrientes e imunidade.
“A ciência está explodindo nessa área. Cada pessoa tem um microbioma único, como uma impressão digital. A comida certa, adaptada ao perfil microbiológico de cada indivíduo, pode ter um impacto direto e mensurável na saúde”, disse. A companhia já desenvolve alimentos específicos para casos clínicos com foco em microbiota e densidade proteica de alto aproveitamento, como os recém-nascidos de cesárea, pacientes oncológicos em quimioterapia ou idosos com perda muscular.
Esser é direta ao afirmar que “a comida pode ser uma forma de medicina”. A Danone, sob sua liderança, lançou em 2024 dois produtos que traduzem essa ideia em escala industrial. O primeiro é um composto de ferro biodisponível desenvolvido para combater a anemia em populações vulneráveis, como crianças e mulheres em países da Ásia. O segundo, testado e lançado na China, é voltado à população idosa e tem por objetivo restaurar a diversidade do microbioma intestinal, replicando a composição bacteriana da juventude. “Chamamos de ‘biótico da juventude’. A diversidade microbiana está fortemente associada à longevidade saudável”, disse ela.
Mas com 100 trilhões de microrganismos interagindo entre si e com o organismo humano, a personalização da alimentação só é possível com tecnologia. A Danone criou o D-Lab em Singapura, um laboratório digital de ponta onde IA e aprendizado de máquina são aplicados à coleta e cruzamento de dados microbiômicos, nutricionais e clínicos.
“O que buscamos é sair do discurso da personalização genérica e chegar à nutrição realmente adaptada a diferentes fases da vida, condições de saúde e perfis biológicos. Isso só é viável se unirmos ciência, digitalização e escala industrial”, afirma. A empresa já coleta dados em estudos com crianças e avança no mapeamento de adultos, com foco em correlações entre estado de saúde, dieta e microbiota.
A busca por alimentos mais naturais também passa pela ciência. Esser afirma que a reformulação do portfólio da Danone segue uma lógica de “naturalidade técnica”: tirar ingredientes artificiais sem comprometer textura ou sabor. “Ninguém quer um produto ácido como o iogurte que fazíamos em 1919. A fermentação hoje, nos permite criar textura, doçura e até cor, sem aditivos. Estamos aplicando IA para entender o efeito de cada cepa bacteriana na experiência sensorial”, afirmou. O portfólio global da Danone atingiu 88% de classificação saudável no Access to Nutrition Index de 2024, ocupando o primeiro lugar do ranking.
Por: Vera Ondei, em Forbes.com


