quinta-feira, 23 abril, 2026
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Seu próximo emprego já pode depender de entrevista feita por recrutador que é uma IA

Processos conduzidos por agentes virtuais se espalham pelo mercado e colocam em xeque o equilíbrio entre eficiência tecnológica e empatia humana

A inteligência artificial está transforando a forma como se busca emprego. Cada vez mais candidatos se deparam com recrutadores virtuais durante os processos seletivos, interagindo com eles por telefone ou vídeo em etapas que antes eram conduzidas por seres humanos.

A americana Lumier Rodriguez passou por isso recentemente. Ao Washington Post, ela contou que, em abril, ativou a opção “aberto para trabalhar” no LinkedIn para mostrar que estava procurando por trabalho temporário. Sem resposta, decidiu se candidatar ativamente a vagas e, então, recebeu e-mails, ligações e mensagens de texto de agentes de IA.

No final de junho, ela já havia sido avaliada por telefone e vídeo quatro vezes pela tecnologia. “Parecia um pouco com um encontro às cegas e você não se informa o suficiente antes de ir. Você não quer ser rude e desligar… mas também me senti um pouco enganada”, avaliou. “Percebi que preciso me preparar para o confronto entre IA e humanos. Sei que veio para ficar.”

De acordo com a associação de recursos humanos Society for Human Resource Management (SHRM), um número crescente de organizações utiliza IA no recrutamento para automatizar a busca por candidatos e se comunicar com eles durante o processo de entrevista. Ao mesmo tempo, os próprios candidatos também vêm recorrendo à essa tecnologia para gerar currículos, personalizar cartas de apresentação e se inscrever automaticamente em diversas vagas.

Nichol Bradford, executivo residente da SHRM, disse ao WP que há uma grande probabilidade de que um dia as pessoas recebam uma ligação da IA. “Vamos passar de presumir que é humano e nos surpreender quando é IA para presumir que é IA”, observou.

Como funcionam as entrevistas com IA

Quando um processo seletivo inclui inteligência artificial, o candidato normalmente é avisado de que poderá interagir com um agente virtual. As entrevistas com ele, por telefone ou vídeo, duram de poucos minutos a cerca de 20, dependendo da experiência do candidato e das perguntas da empresa contratante.

Há casos em que a IA encerra a entrevista caso os critérios mínimos não sejam atendidos. Alguns sistemas permitem perguntas, embora os agentes possam não conseguir responder a todas, e ainda há aqueles que possuem indicadores de sentimento que podem sinalizar problemas, como quando um candidato fica frustrado.

Ao final, as respostas são analisadas pelo algoritmo, transcritas e repassadas para recrutadores humanos. Empresas consultadas pelo WP informaram que as pessoas podem optar por não participar de entrevistas com IA sem consequências, mas acrescentaram que é apenas uma questão de tempo até que esse tipo de chamada se torne a norma.

Por enquanto, isso não tem agradado todo mundo. Alguns candidatos entrevistados por recrutadores virtuais afirmaram que eles os interromperam ou os interpretaram mal e pareceram impessoais. Diante disso, existe a preocupação de as suas respostas não serem transcritas ou avaliadas com precisão.

A designer instrucional Jen Glaser, também dos Estados Unidos, teve uma experiência com a tecnologia que a deixou “perplexa”. De acordo com ela, o agente fez perguntas que ela imaginou que um ser humano teria deduzido ao ler seu currículo, e, embora parecesse humano e receptivo, faltava-lhe empatia.

Além disso, quando ela não entendeu uma pergunta e pediu que repetisse, a IA respondeu “sem problemas, ligo de volta”, e desligou.

Situações semelhantes aconteceram com a cientista de dados Nisha Kaushal. Em uma entrevista, o agente virtual parecia ter limites de tempo, e a interrompia quando falava demais ou a deixava sem resposta quando sua fala era curta.

“Como a IA não é perfeita, quem sabe o que ela conseguiu”, salientou. “A empresa disse que um recrutador humano entraria em contato se gostasse de mim, mas será que estou sendo filtrado por um humano ou pela IA?”

Do lado das empresas, elas defendem que os agentes virtuais superam os humanos, especialmente em contratações sazonais ou de alto volume. “A melhor maneira de descrever a Angel é a tecnologia 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, que potencializa os esforços de recrutamento do nosso capital humano”, disse Adam Samples, presidente de soluções de talentos da Atrium, sobre seu recrutador virtual Angel. “Não se trata de tomar decisões de contratação. Essas decisões são deixadas para a equipe de recrutamento.”

David Koch, diretor de inovação da PSG Global Solutions, afirmou que a IA Anna usada pela companhia “não se cansa”. E Amar Panchal, CEO da Akraya, garantiu que “a qualidade das entrevistas melhorou” com o agente Raya.

A treinadora profissional Tiffney Keller, do Texas, garantiu que teve uma experiência positiva com a tecnologia. “Isso faz você pensar com seus instintos, com base no seu conhecimento”, observou, complementando que uma transcrição ao vivo a fez perceber os termos de preenchimento que usava. “Eu estava muito consciente de ser refinada e de reservar um segundo para pensar nas minhas respostas antes de simplesmente dizê-las.”

Por Renata Turbiani

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