terça-feira, 10 março, 2026
HomeCOLUNA DE OPINIÃOProdutos e empresas morrem, mas marcas continuam

Produtos e empresas morrem, mas marcas continuam

O que startups como Figma, Oura e Stripe entenderam antes de escalar: você pode ser copiado no produto, mas não na percepção. Toda startup nasce como produto. Poucas sobrevivem para virar marca.

É por isso que tantas ideias brilhantes desmoronam na Series A, mesmo com tecnologia de ponta, funding generoso e times talentosos. Não fracassam (apenas) por falta de produto. Fracassam porque ninguém se importa com o que elas representam.

Produto te coloca no jogo. Marca te mantém nele.

A economia atual não se move só pela tecnologia. Se move por narrativas memoráveis.

Segundo a pesquisa Havas Meaningful Brands, 77% das marcas poderiam desaparecer amanhã sem que ninguém sentisse falta. Mas as 23% consideradas significativas superam seus pares em resultado financeiro, retenção e engajamento.

Exemplo 1: Oura Ring

Oura é, tecnicamente, apenas um wearable. Mas se posicionou como símbolo de autoconsciência e performance pessoal. Em vez de competir com Fitbit em funcionalidades, construiu status cultural. Resultado: valuation de US$ 2,55 bilhões em 2022 e presença nas mãos de atletas da NBA e executivos do Vale do Silício.

Valor percebido > entrega de features.

Você pode ter a melhor engenharia do mundo. Mas se não houver percepção de valor, sua margem vai sangrar.

Exemplo 2: Figma

Quando o Figma surgiu, já existiam Adobe XD, Sketch e InVision. A diferença? O Figma virou plataforma colaborativa antes de ser “só um software de design”. Criou comunidade. Criou cultura. Criou valor percebido. Resultado: adquirido por US$ 20 bilhões em 2022.

Muitos fundadores correm para o mercado com um MVP funcional. Mas quase ninguém testa percepção de valor. Quase ninguém avalia como a solução soa na mente do cliente. E poucos validam se vendem transformação ou apenas mais uma ferramenta.

Produtos são racionais.

Marcas são emocionais e contextuais.

Essa diferença pesa diretamente em CAC, churn e LTV.

A marca é a camada invisível que protege preço, margem e narrativa.

Exemplo 3: Stripe

A Stripe não é só “um jeito de receber pagamentos”. É a infraestrutura que alimenta a economia da internet.

Essa camada simbólica vai além da tecnologia e sustenta múltiplos elevados, mesmo em ciclos econômicos difíceis.

Como se constrói isso, na prática?

  1. Consistência brutal de propósito
    Marcas fortes não mudam narrativa a cada sprint. Elas têm uma tese clara. E reiteram.
  2. Construção de símbolos
    O que representa você visualmente, verbalmente, contextualmente?
  3. Domínio de categoria
    Você quer competir em quê? Preço? Performance? Ou na mente?
  4. Comunidade como extensão da marca
    O que é Notion sem os creators no YouTube? O que é Zapier sem os power users mostrando automações?
  5. Modelo de negócio que reforça o posicionamento
    Se você entrega algo transformador, cobre por transformação, não por acesso.

Slack: de game fracassado a cultura de trabalho

Antes de ser a ferramenta de colaboração que todos conhecem, o Slack era… um jogo. Stewart Butterfield desenvolvia um MMORPG chamado Glitch. O jogo não vingou.

Mas a equipe criou uma ferramenta interna de comunicação que se mostrou mais valiosa que o próprio game.

Em 2012, com o fim de Glitch, nasceu o Slack. Não como cópia da Microsoft. Não como “chat corporativo”. Mas como símbolo de uma nova forma de trabalhar: fluida, colaborativa e moderna.

Resultado:

  • O jogo morreu, mas o “jeito Slack” virou cultura.
  • A marca conectou-se com startups, depois com empresas tradicionais.
  • Foi vendida à Salesforce por US$ 27,7 bilhões em 2021.

A morte do produto não matou a visão. Porque a visão nunca foi sobre jogos, mas sobre como equipes deveriam se comunicar no digital. E esse tipo de valor é impossível de copiar.

Produto é prova. Marca é preferência.

Se o cliente vê valor, mas não sente valor, você perde. Se o mercado entende você, mas não deseja você, você estagna. Se você constrói apenas o negócio, e não a marca, você será substituível. Mas se você constrói significado, mesmo que troquem o produto, continuarão querendo você.

Leonardo Santos
Leonardo Santos
Especialista em gestão de pessoas, inovação, produto, tecnologia, marketing e novos negócios, com foco em estratégias disruptivas. Atua com metodologias ágeis, como Scrum, para otimizar projetos e estimular a criatividade das equipes. Desenvolveu uma visão estratégica que conecta marketing, vendas e tecnologias emergentes para antecipar tendências. Atualmente, é Diretor-Geral da Zeine, onde apoia empreendedores na criação de produtos que desafiam o status quo. Mantém-se atento às inovações e busca conduzir empresas por caminhos diferenciados, gerando soluções relevantes em mercados competitivos.
RECOMENDADOS

MAIS POPULAR