segunda-feira, 09 março, 2026
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O marketing da obsolescência nos tempos de predominância da IA

A combinação entre marketing poderoso, disseminação massiva da ideia de tecnologias cada vez mais potentes e a iminente substituição do humano pelo digital tem ganhado espaço, mas pode ser algo bastante fantasioso

Ao longo dos últimos anos, o crescimento do marketing em torno da inteligência artificial (IA) tem sido uma pauta avassaladora na indústria da tecnologia, envolvendo desde as tradicionais empresas dedicadas ao desenvolvimento de sistemas integrados de gestão, passando por grandes fornecedoras de infraestrutura digital, por startups especializadas em análises de dados, até fundos de investimento focados em ações de tecnologia.

A percepção de um mundo completamente dependente da IA, seja para ganhos de produtividade, estímulo a novas receitas ou promoção de equipes altamente competitivas tem sido uma agenda recorrente dessas empresas, gerando a impressão de que é impossível sobreviver sem tamanha digitalização.

Na mesma direção, vários especialistas têm propagado cenários catastróficos com o avanço da IA expressando receios sobre máquinas pensarem de forma independente e superarem a capacidade humana de resolver problemas. A combinação entre marketing poderoso, disseminação massiva da ideia de tecnologias cada vez mais potentes e a iminente substituição do humano pelo digital tem ganhado espaço, mas pode ser algo bastante fantasioso.

Como ponto de partida para analisar o contraditório, seria amplamente recomendado ler os textos seminais dos pesquisadores que originaram o próprio tema da IA. Ou seja, estudar as publicações fundamentais de brilhantes professores como Alan Turing, Marvin Minsky, entre tantos outros nomes, deveria ser “lição de casa” para quem discute tecnologia, o que nem sempre é óbvio.

O próprio Alan Turing menciona, em um de seus textos, que modelos matemáticos e poder computacional não teriam a capacidade de racionalizar ou explicar grande parte dos problemas da sociedade, cabendo às pessoas resolvê-los.

Em tempos em que a capacidade de leitura e raciocínio lógico entre jovens em fase de ensino básico apresenta taxas preocupantes de declínio, seria recomendável questionar se a IA é, de fato, inteligente e artificial em sentido pleno.

Basta uma boa conversa com especialistas do tema, atuando em universidades de ponta ou em empresas altamente relevantes do universo tecnológico, para compreender que estamos lidando essencialmente com grandes bases de dados e sistemas estatísticos multivariados, dotados de elevada capacidade computacional para resolver problemas do dia a dia, nada além disso.

Por fim, deve-se incluir nessa avaliação o enorme consumo de energia associado aos investimentos em grandes bancos de dados ao redor do mundo, gerando impactos diretos nos desafios relacionados às mudanças climáticas.

A soma entre marketing, queda nos indicadores educacionais, ganhos operacionais limitados e a valorização exagerada das ações dessas empresas de tecnologia, com indícios de bolha, deveria ser analisada com mais cautela.

É preciso entender quem realmente se beneficia dessa narrativa imposta. A verdadeira inteligência consiste em questionar quem está sendo inteligente nessa corrida tecnológica e quais caminhos são necessários para reconstruir essa história em benefício coletivo.

Por: Hugo Tadeu

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