terça-feira, 10 março, 2026
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Mais caro anunciar, mais difícil inovar: o peso da estrutura brasileira sobre os pequenos

A Meta anunciou que, a partir de 2026, anunciar no Facebook e no Instagram ficará mais caro no Brasil. A empresa justificou o aumento como uma adequação à reforma tributária brasileira. Ou seja, a partir de janeiro do próximo ano, toda compra de anúncios nessas plataformas terá um reajuste de 12,15%, com o repasse direto de tributos como PIS/COFINS e ISS, que hoje são absorvidos pela própria big tech. 

A publicidade digital, que durante muito tempo efetivamente democratizou o alcance, ficará mais cara. E, mais uma vez, quem sentirá o impacto não são as grandes marcas, e sim os micro e pequenos empreendedores, que dependem das plataformas digitais para prospectar clientes e sustentar seus negócios. 

Essa notícia me fez lembrar de uma palestra recente do CEO do iFood, Diego Barreto, durante o Startup Summit 2025, em que ele refletiu sobre como o Brasil é um país onde a inovação e a disrupção historicamente enfrentam barreiras estruturais, que valoriza a estabilidade e a previsibilidade, mas sufoca quem tenta construir o novo. 

O Brasil foi construído sob uma lógica de conservação. A ausência de rupturas significativas manteve o poder concentrado nas mesmas estruturas políticas e econômicas.  

Essa lógica se manifesta até em nossa forma de pensar. Como destacou Barreto, “A nossa cabeça foi montada para ser linear, para ser medrosa, para seguir o mais do mesmo. E aí, a sociedade linear, econômica e política, o que ela faz? Ela ajuda a gente. Ela aumenta um monte de barreiras de entrada para a competição nova, e ela arrebenta o empreendedor com a burocracia.”

O aumento dos custos de anúncios é apenas mais um sintoma dessa desigualdade. As grandes empresas absorvem a mudança, enquanto os pequenos empreendedores veem seu espaço diminuir. O que nasceu como um canal para democratizar a comunicação pode se transformar em mais um filtro que limita o crescimento de quem está começando. 

É possível argumentar que o aumento de preços da Meta é apenas consequência da reforma tributária e que empreendedores podem buscar outras formas de divulgação, como o Google Ads, o TikTok ou estratégias virais e orgânicas. 

Essas justificativas são válidas, mas ignoram o contexto mais amplo. O problema não está no reajuste em si, e sim no ambiente frágil em que ele ocorre. Em um país onde os pequenos já enfrentam altos impostos, falta de crédito e burocracia excessiva, qualquer aumento de custo se torna um obstáculo real. 

Enquanto outras nações investem em incentivos à inovação de forma robusta e estratégica, o Brasil continua preso a um modelo linear que privilegia a manutenção do sistema. Essa mentalidade torna cada nova mudança mais um desafio para quem tenta empreender. 

O Brasil ainda trata o empreendedorismo como exceção, quando ele deveria ser o motor do desenvolvimento. Apesar de tudo, há sinais de esperança. Ecossistemas de inovação estão se fortalecendo e empreendedores têm mostrado que é possível fazer diferente. Empresas como Nubank, RD Station, Hotmart, QuintoAndar, Conta Azul, Ebanx, Stone e o próprio iFood são exemplos de que é possível construir negócios de escala global a partir do Brasil, desafiando a burocracia e o ceticismo que sempre acompanharam quem ousa criar. 

O futuro não vai chegar por decreto nem por reformas. Definitivamente, não virá de cima. 

Ele nasce da inquietação de quem se recusa a esperar. De quem, mesmo diante dos obstáculos, escolhe sonhar grande e construir diferente. O Brasil deixará de ser o país do futuro quando mais pessoas tiverem a coragem de reinventar o presente. 

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