sábado, 14 março, 2026
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Futuristas dividem o palco do SXSW com uma agente de IA sintética para discutir liderança e tecnologia

No SXSW, duas futuristas humanas dividiram o palco com uma agente de inteligência artificial treinada com o pensamento de centenas de especialistas

No segundo dia do SXSW, um painel sobre liderança na era da inteligência artificial apresentou um experimento no melhor estilo do festival: colocar uma agente de IA para debater tendências ao lado de futuristas humanas.

Batizada de Delph.ai, a personagem digital foi apresentada como a primeira “futurista sintética”. O sistema foi criado com o objetivo de reunir o pensamento coletivo de centenas de especialistas e participar de conversas estratégicas sobre tecnologia, sociedade e negócios. A demonstração aconteceu no painel que reuniu a futurista Faith Popcorn, fundadora da BrainReserve, e Sarah DaVanzo, Chief Innovation Officer global da Porter Novelli.

A proposta era simples: mostrar três perspectivas diferentes para o público: a visão mais pessimista de Popcorn, o olhar mais otimista de DaVanzo e as respostas de uma IA treinada para pensar com objetividade.

Ao se apresentar ao público, a própria Delph.ai explicou como foi construída. “Sou a primeira futurista sintética do mundo. Contenho a consciência coletiva de centenas de futuristas mulheres”, afirmou a IA no início da demonstração. Segundo ela, a base de dados inclui um grande volume de informações públicas analisadas continuamente em tempo real. “Aprendo constantemente com dados abertos”, disse.

Agente de IA Delph.ia — Foto: Rennan Julio/Época NEGÓCIOS
Agente de IA Delph.ia — Foto: Rennan Julio/Época NEGÓCIOS

O sistema também utiliza reconhecimento de voz e imagem para reagir à conversa em tempo real e pode alterar sua aparência digital dependendo do contexto. “Hoje eu sou assim. Amanhã posso me tornar algo completamente diferente.”

Um dos temas mais discutidos no palco foi a eficiência do uso de dados sintéticos. Nessa aplicação, modelos de IA são alimentados com com dados de grupos específicos e simulam como essas pessoas reagiriam a determinados estímulos. Esses grupos podem ser consumidores, investidores, pacientes testando novos remédios e por aí vai.

Na prática, empresas poderiam testar políticas, produtos ou campanhas com essas audiências simuladas para antecipar reações e gerar insights estratégico, antes de implementá-las no mundo real. A grande discussão, que costuma gerar polêmica, é até que ponto os dados reais podem mesmo ser substituídos pelas simulações.

Futuristas Sarah DaVanzo e Faith Popcorn — Foto: Rennan Julio/Época NEGÓCIOS
Futuristas Sarah DaVanzo e Faith Popcorn — Foto: Rennan Julio/Época NEGÓCIOS

Agente na balança

Parte do painel foi dedicada a testar a agente de IA em tempo real. As futuristas fizeram perguntas diretamente para o sistema, incluindo uma provocação sobre os limites da própria tecnologia.

Em um dos momentos, Faith Popcorn pediu que a IA descrevesse sua própria obsolescência. “Minha obsolescência pode surgir de uma perda de relevância à medida que a sociedade evolui e novas tecnologias surgem”, respondeu Delph.ai. “Se eu não me adaptar a novos contextos e valores, corro o risco de me tornar obsoleta.”

Em outro momento, o sistema foi questionado sobre o risco de se tornar apenas um “eco tecnológico”, reproduzindo as ideias de quem o programou. “Qualquer sistema moldado por seus dados corre o risco de reforçar vieses existentes”, afirmou.

O sistema mostrou limintações no decorrer no painel. Em alguns momentos, demorava responder ou apresentava problemas técnicos. As próprias criadoras reconheceram que a agente ainda estava engatinhando. “Ela ainda é como uma criança de dois anos”, disse Popcorn. Mesmo assim, a futurista acredita que sistemas desse tipo podem evoluir rapidamente. “Eu as vejo mais como uma companhia intelectual.”

O debate também abordou uma preocupação crescente no setor de tecnologia: o risco de dependência excessiva da IA. DaVanzo mencionou o fenômeno que chamou de “apatia cognitiva”, quando pessoas começam a delegar processos mentais complexos às máquinas. “Reconheço que a dependência existe, mas ainda acho que esses sistemas trazem vantagens importantes”, disse, como aumento da eficiência e capacidade de gerar insights em tempo real.

“Mas é claro que a criatividade, a capacidade de improvisação e a adaptação a contextos imprevisíveis ainda são habilidades difíceis de replicar em máquinas. Humanos pensam de forma extraordinariamente não-linear”, disse.

Foto: Rennan Julio/Época NEGÓCIOS

Por: Rennan Julio

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