Psicanalistas da Float Vibes analisaram como a aceleração cultural e a cobrança por disciplina moldam corpo, trabalho e vida cotidiana
As transformações culturais e comportamentais estão acontecendo em velocidade tão alta que os modelos clássicos de análise já não dão conta de explicá-las. Esse foi o ponto de partida dos psicanalistas André Alves e Lucas Liedke, cofundadores da empresa de consultoria criativa Float Vibes, em sua palestra no KES Summit. Eles chamam esse cenário de “presente extremo” — um tempo marcado por excesso de ruído, pressão por autocontrole e pela lógica de uma produtividade que muitas vezes é apenas performática.
“Vivemos um presente extremo”, resumiu Alves. “Acordamos e dormimos com uma sensação ambígua de aceleração, como se tudo estivesse sempre prestes a piorar. As mudanças acontecem aos solavancos, numa intensidade que ultrapassa nossa capacidade de processamento.”
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A era do ruído
Para os dois pesquisadores, já não faz sentido falar em era da atenção ou da distração. O diagnóstico é mais radical: vivemos a era do ruído.
“Do momento em que acordamos até a hora de dormir, somos sugados pelo ruído”, disse Liedke. “Basta ver o número de pessoas que consomem horas de conteúdo no celular até mesmo no banheiro.”
Esse excesso não se limita ao consumo de informação: ele invade o trabalho, o lazer, os relacionamentos e até os momentos de descanso. A experiência cotidiana se tornou atravessada por estímulos constantes, o que fragiliza a capacidade de acompanhar as mudanças e de dar sentido ao que está acontecendo.
Diante desse cenário, a Float defende uma mudança de olhar: menos foco em identidades fixas e mais atenção às identificações temporárias que moldam desejos, consumos e pertencimentos.
“Ninguém hoje é de uma tendência o tempo todo. As pessoas investem em identificações passageiras, que funcionam como estados temporários de consumo”, explicou Alves.
Tendências que nascem e morrem em semanas
Esse ritmo vertiginoso cria uma sucessão de fenômenos culturais que aparecem e desaparecem com a mesma velocidade. Alves e Liedke lembraram de modas recentes, como os bebês reborn, o morango do amor e até a febre de produtos com nicotina energética.
“Mal nos damos conta de que uma novidade foi inventada e já precisamos lidar com seus efeitos”, disse Liedke. Para eles, a própria noção de tendência perdeu sentido. Se antes ela era vista como um movimento que se consolidava ao longo do tempo, hoje se tornou quase impossível de sustentar, porque a intensidade do consumo esvazia sua duração.
O culto ao controle
É nesse ambiente de aceleração que os pesquisadores identificam o que chamam de culto ao controle. A lógica é simples: quanto maior a instabilidade do mundo, mais cresce a pressão para que o indivíduo se discipline e se torne senhor de si mesmo.
“Se você não está sendo produtivo, se não consegue mudar de vida, dizem que é porque está viciado nos prazeres fáceis”, afirmou Liedke. “As expectativas são sempre de alta performance, da sua melhor versão, e isso gera uma guerra contínua contra si mesmo.”
Essa exigência aparece de forma difusa, em diferentes camadas da cultura. Segundo Alves, ela transformou até o bem-estar em espetáculo. “Quantos amigos e familiares se tornaram triatletas ou adeptos de corridas de alta performance? Hoje todo mundo parece ter uma banheira de gelo em casa ou tomar creatina diariamente. O bem-estar virou show principal no grande espetáculo da vida cotidiana.”
O corpo como palco
A busca por autocontrole, apontaram os palestrantes, não se restringe ao desempenho profissional. O corpo se tornou um dos principais palcos dessa disciplina permanente.
“Quando recebemos no consultório alguém que pergunta ‘será que eu sou bom o suficiente?’, vemos como os ideais corporais se cristalizaram”, contou Liedke. “A pressão por ter o corpo perfeito não atinge só as mulheres — hoje muitos homens também se sentem obrigados a ‘meter o shape’.”
O que poderia ser uma cultura de cuidado passa a alimentar inadequação e solidão. “A cultura fitness, que poderia ser uma ferramenta de saúde, muitas vezes se transforma em pornografia do extremo: sobreviver a experiências intensas é vendido como mérito absoluto”, completou Alves.
O trabalho que nunca termina
No mundo corporativo, o culto ao controle aparece sob a forma de metas inalcançáveis e jornadas que nunca terminam.
“No fim, não importa se o processo é o melhor ou o pior — importa que você entregue. Mas isso desemboca em nunca parar de trabalhar”, observou Liedke.
Alves trouxe um exemplo concreto: em uma reunião de liderança em 2025, a meta definida era entregar 140% do esperado. “Um executivo levantou a mão e perguntou: isso é real ou delírio? A resposta foi: é real. Essa lógica de que tudo é urgente, de que tudo é para ontem, está deixando líderes ansiosos, medicados ou quebrados.”
Essa cobrança permanente se cristaliza em um discurso motivacional que, no limite, naturaliza o excesso. No fim, todos são instados a se monitorar, regular emoções e hábitos, e se comportar como se fossem super-humanos.
Produtividade performática
O resultado, segundo a Float, é uma produtividade performática, mais interessada em parecer eficiente do que em criar valor. Os dados citados na apresentação são contundentes: 41% do tempo de trabalho é gasto em tarefas que não agregam valor. Além disso, 43% dos profissionais disseram passar até 10 horas por semana apenas tentando parecer produtivos.
“Muita gente prefere dizer ‘tenho uma vida corrida’ do que admitir que não está conseguindo dar conta. É uma produtividade que, muitas vezes, é só performática”, comentou Liedke.
Essa lógica, acrescentaram, também produz status: ter uma agenda cheia continua sendo visto como sinônimo de importância, ainda que o impacto real do trabalho seja pequeno.
A obsessão pela disciplina
Esse excesso de autocontrole acaba gerando paradoxos curiosos. “Muita gente não consegue controlar nada, mas passa a controlar rituais banais — como checar várias vezes se a porta está trancada ou seguir listas obsessivas de hábitos”, exemplificou Alves.
O problema, disseram, é quando práticas triviais são convertidas em rituais de disciplina extrema. A lista é longa: banhos de gelo, dietas rígidas, a rotina de acordar às quatro da manhã, protocolos estoicos de autocontrole. “É como se houvesse uma pornografia do extremo: só vale aquilo que exige muito e que comprova resistência absoluta”, afirmou Liedke.
Do indivíduo à cultura corporativa
Esse padrão de comportamento também se espalha para as empresas. A ideia de resiliência foi transformada em virtude absoluta, como se fosse obrigação individual lidar com qualquer adversidade, independentemente das condições estruturais.
“A resiliência virou uma virtude absoluta. Espera-se que o indivíduo se adapte a qualquer condição, como se o sistema não tivesse responsabilidade nenhuma”, avaliou Alves.
Nesse ambiente, alertaram, vícios diversos — substâncias, pornografia, excesso de trabalho — acabam paradoxalmente reclassificados como esforço e superação.
Navegar o improviso
Apesar da crítica, Alves e Liedke encerraram em tom propositivo. Para eles, é urgente resgatar a capacidade de transformação diante das mudanças.
“O culto ao controle calcifica a mente e dificulta lidar com o novo”, disse Liedke. “Navegar o improviso é decidir, sob pressão, o que é negociável e o que é inegociável. É entender que progresso não se resume a métricas, mas também a recuperar humanidade e criar vínculos mais fortes.”
*O jornalista viajou a convite da organização do KES Summit
Por: Daniel Pinheiro — Trancoso, na Bahia*


