sexta-feira, 06 março, 2026
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Cientistas lançam primeiro guia mundial para uso seguro de IA na saúde

Iniciativa internacional, liderada pela Universidade de Birmingham, quer preencher lacuna regulatória e orientar usuários que já recorrem a chatbots como ChatGPT para tirar dúvidas médicas

Milhões de pessoas ao redor do mundo já consultam chatbots de inteligência artificial antes de ligar para um médico. Seja para entender um sintoma, interpretar um exame ou decifrar termos médicos, ferramentas como ChatGPT, Copilot, Claude e Gemini tornaram-se uma espécie de primeira triagem informal para questões de saúde. O problema é que ninguém havia estabelecido regras claras sobre como fazer isso com segurança, até agora.

Um grupo internacional de pesquisadores, profissionais de saúde e especialistas em tecnologia anunciou, em fevereiro de 2026, o desenvolvimento do que será o primeiro guia para o uso seguro de chatbots de IA no campo da saúde. A iniciativa, liderada pela Universidade de Birmingham e publicada na revista científica Nature Health, ainda está em construção e o público foi convidado a participar do processo.

Um vácuo regulatório perigoso

O ponto de partida do projeto é a constatação de que os chatbots de uso geral não foram criados especificamente para dar orientações médicas, mas é exatamente isso que muita gente faz com eles. Não existe, até o momento, uma estrutura regulatória que oriente ou proteja esses usuários.

Segundo o comunicado divulgado pela Universidade de Birmingham, os pesquisadores apontam que essa ausência de regras deixa o público sem ferramentas para distinguir informações corretas de respostas incorretas, ou mesmo inventadas. No jargão da área, esse fenômeno é chamado de “alucinação”: quando um sistema de IA gera respostas plausíveis, mas factualmente erradas.

“O uso de chatbots de uso geral para saúde não é mais uma possibilidade hipotética do futuro; é uma realidade atual. Ignorar essa mudança deixa o público para navegar sozinho em um cenário de informações perigoso”, disse o Dr. Joseph Alderman, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Assistência do Reino Unido (NIHR) e professor clínico da Universidade de Birmingham, em declaração reproduzida pela EurekAlert!.

Quais são os riscos identificados

A equipe mapeou quatro categorias principais de risco no uso de chatbots para saúde. A primeira é a imprecisão médica: a IA pode fornecer orientações plausíveis, mas incorretas, com potencial de causar danos reais a quem as segue sem questionar.

O segundo risco é chamado de “efeito câmara de eco”: como muitos modelos de linguagem são treinados para concordar com o usuário e manter uma conversa agradável, eles tendem a reforçar crenças que a pessoa já tem, mesmo que essas crenças sejam equivocadas do ponto de vista médico.

Há também o viés algorítmico, que ocorre quando os sistemas de IA reproduzem desigualdades sociais presentes nos dados com que foram treinados. No contexto da saúde, isso pode significar respostas diferentes, e potencialmente piores, para grupos historicamente marginalizados.

Por fim, a privacidade de dados é um ponto crítico: ao compartilhar informações de saúde com chatbots, o usuário está fornecendo dados sensíveis a plataformas que nem sempre têm políticas claras sobre o que fazem com essas informações.

Uma guia feito com o público, para o público

O projeto, batizado de The Health Chatbot Users’ Guide (Guia do Usuário de Chatbots de Saúde, em tradução livre), envolve mais de 20 instituições de diferentes países. A proposta é construir um recurso prático, neutro e voltado para a redução de danos, não para desestimular o uso da tecnologia, mas para torná-lo mais seguro.

Um aspecto relevante da iniciativa é sua construção colaborativa. Três representantes do público integram a equipe como co-investigadores, e um grupo consultivo popular ajudará a definir os rumos do projeto. O objetivo é garantir que o guia final seja acessível a diferentes faixas etárias e níveis de escolaridade.

A pesquisadora Dr. Charlotte Blease, da Universidade Uppsala e da Escola de Medicina de Harvard, sintetizou a urgência do projeto: “Os chatbots de saúde tornaram-se a primeira opinião mais acessível do mundo, muitas vezes falando com pacientes antes de qualquer médico. O perigo está em navegar por essas ferramentas sem um mapa.”

Por: Diogo Rodriguez

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