Interfaces cérebro-computador deixam o campo experimental e ganham função prática em pacientes com paralisia. Empresas como Neuralink e Paradromics lideram esse avanço, enquanto cresce o debate sobre privacidade mental
Durante décadas, os implantes cerebrais foram uma promessa distante da neurociência, confinados a laboratórios e testes com animais. Mas esse cenário mudou. Agora, a tecnologia de interface cérebro-computador (BCI, em inglês) já saiu da fase experimental e ganhou função prática.
Sete pessoas, por exemplo, já convivem com dispositivos N1 da Neuralink – empresa de Elon Musk – instalados em seus cérebros, o que lhes permite operar computadores, desenhar objetos em 3D e retomar parte de suas rotinas interrompidas por lesões graves.
Seis deles participam do estudo PRIME, conduzido pelo Instituto Neurológico Barrow, Reportagem da PCMag explica que eles receberam o implante por meio de uma cirurgia na qual um braço robótico personalizado perfura um orifício no crânio e faz a implementação.
O implante, então, se conecta a um computador via Bluetooth, permitindo que os pacientes movam o cursor, selecionem palavras para digitar, naveguem na internet e até joguem videogame.
A primeira pessoa a receber o dispositivo da Neuralink foi Noland Arbaugh, de 31 anos, que ficou tetraplégico após um acidente de mergulho. Inicialmente, ele o usou para jogar muitos jogos, mas depois aprimorou o uso.
“Não tenho jogado tantos videogames quanto no começo. Estou constantemente encontrando maneiras de melhorar minha vida e me sustentar financeiramente. Isso envolve muitos e-mails, edição de sites, redação, pesquisas, operações bancárias, tarefas domésticas — apenas sendo um adulto tentando encontrar uma maneira de sobreviver”, relatou à PCMag.
Apesar de ainda haver limitações, ele acrescentou que a experiência com o implante é “a jornada” da sua vida, além de mudar a sua perspectiva de vida e lhe dar a convicção de que um dia todos que quiserem terão uma BCI. “Isso nos levará a um patamar totalmente novo, no que diz respeito ao desenvolvimento humano e social, desde que avancemos de forma responsável”, ponderou.
Outros pacientes da empresa de Musk incluem Alex, um ex-fabricante de peças de máquinas que perdeu a função dos braços e usa seu implante para projetar peças de máquinas 3D com design auxiliado por computador (CAD), e Brad, a primeira pessoa com esclerose lateral amiotrófica (ELA) a receber o dispositivo.
Ainda há Mike, também com ELA e “a primeira pessoa com emprego em tempo integral a usar o implante N1”, segundo o Instituto Neurológico Barrow. Ele é técnico de topografia e, assim como Alex, usa software CAD.
O quinto paciente, conhecido pela sigla RJ, um veterano que ficou paralisado após um acidente de moto. Os outros dois permanecem anônimos.
Protagonismo não é só da Neuralink
A Neuralink é sem dúvida a empresa que atrai a maior atenção na área de interface cérebro-computador, mas há outras nesse setor. A startup Paradromics, por exemplo, concluiu seu primeiro implante humano no mês passado. Ela utiliza um chip cerebral com 1.600 eletrodos – o da companhia de Musk tem 1.024.
Já a Precision Neuroscience, cofundada por Ben Rapoport, ex-executivo da Neuralink, aposta em uma abordagem menos invasiva com películas finas que se fixam na superfície do cérebro em vez de penetrá-la, informa o portal Quartz. A ela recebeu autorização da agência Food and Drug Administration (FDA) para uso limitado no início deste ano.
Mais um nome do setor é a Synchron, apoiado por Jeff Bezos e Bill Gates. A empresa desenvolveu um método que dispensa a abertura do crânio, inserindo eletrodos por vasos sanguíneos. Dez pacientes já receberam o sistema, que deve ser o primeiro BCI com conectividade Bluetooth para dispositivos Apple.
Paralelamente, pesquisadores da Universidade da Califórnia (UC) criaram um sistema de síntese de fala que traduz sinais cerebrais em texto e, em seguida, sintetizar a fala em apenas 10 milissegundos. E na Carnegie Mellon, cientistas conseguiram controlar dedos robóticos individuais em tempo real usando tecnologia de EEG não invasiva, usando um boné que lê sinais cerebrais através do crânio.
Mas, para que os IBCs se tornem dispositivos médicos convencionais, as empresas ainda precisarão enfrentar alguns obstáculos, como promover melhorias na precisão resolver os desafios de segurança cibernética e privacidade, protegendo dados neurais que podem representar as informações mais íntimas geradas pelos humanos e, ao mesmo tempo, garantir que os algoritmos de IA decodifiquem de forma confiável os pensamentos de diferentes pacientes e condições.
Ainda assim, os executivos do setor estão cada vez mais confiantes. De acordo com o Quartz, diversas empresas esperam lançar produtos de primeira geração no mercado dentro de dois a três anos, voltados para pessoas com lesões na medula espinhal ou ELA. Esses dispositivos provavelmente oferecerão controle por smartphone e computador, acesso a softwares de produtividade e recursos básicos de comunicação.
Por: Renata Turbiani


