A criação de uma reserva de bitcoin pelos EUA elevaria a moeda ao status de ativo estratégico nacional, potencialmente transformando o seu papel no sistema financeiro global
Não seria exagero chamar 2024 de o ano das criptomoedas. O bitcoin, que valia US$ 40.000 em janeiro, superou a marca dos US$ 100.000 no fim do ano. “Foi um ano espetacular, ainda mais considerando os anos anteriores, que haviam sido de acomodação e até de recuo para ativos de maior risco”, diz Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin.
O setor deixou definitivamente para trás o inverno cripto de 2021 e 2022, comemorou a aprovação histórica de um ETF de Bitcoin nos EUA e viu as moedas se transformarem em ferramentas de campanha política – o então candidato Donald Trump declarou que relaxaria as regras para o mercado caso fosse reeleito e se autointitulou o “presidente cripto”. Quando os resultados da eleição foram divulgados, o bitcoin subiu mais de 50%, ultrapassando o marco histórico de US$ 100.000 em novembro. Para muitos, foi um ponto de virada – e, em 2025, o céu é o limite.
“No final do ano houve essa retomada vigorosa, em função de elementos externos ao Brasil. O anúncio da mudança de liderança na SEC [reguladora do mercado no EUA, feita por Trump] fez toda a diferença para o mercado”, diz Rabelo. “O diretor anterior, Gary Gensler, vinha adotando uma postura conservadora em relação às criptomoedas, principalmente depois da quebra da FTX. Por isso, a indicação do Paul Atkins, que é pró-cripto, está empolgando muita gente.”
O recente anúncio feito pelo presidente eleito Donald Trump, sugerindo que ele pretende criar uma reserva estratégica de bitcoins no país, colocou ainda mais lenha na fogueira. Em novo recorde, a moeda foi negociada acima de US$ 106 mil no dia 15 de dezembro.
“Faremos algo ótimo com a cripto porque não queremos que a China ou qualquer outro faça, queremos ser os líderes”, disse Trump à rede CNBC. A declaração confirma o que muitos analistas previam. Depois de assumir o cargo, Trump deve não apenas diminuir as restrições às criptomoedas, enfraquecendo o poder da SEC (Securities and Exchange Commission) para regulá-las, como também transformá-las em uma das prioridades estratégicas do seu governo.
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A criação de uma reserva de bitcoin elevaria a moeda ao status de ativo estratégico nacional, potencialmente transformando o seu papel no sistema financeiro global. Na prática, a medida teria o poder de gerar uma corrida em diferentes países para adquirir a criptomoeda.
Nesse cenário, é possível que a China reverta sua proibição em relação às criptomoedas, em vigor desde 2021, e crie sua própria reserva também. Há quem acredite que a Rússia também siga por esse caminho, por conta de declarações recentes de Vladimir Putin sobre a utilidade do bitcoin.
“Essa é uma das teses antigas do bitcoin, de que uma reserva da criptomoeda iria surgir e substituir a de ouro”, afirma o CEO do Mercado Bitcoin. “Ou que, pelo menos, a criptomoeda competiria com o ouro como reserva de valor. O fato de países como Estados Unidos e Japão estarem considerando essa reserva é mais um elemento que traz liquidez e aumento de preço às criptomoedas.”
É impossível prever o efeito que todo esse movimento terá no mercado – mas especialistas já projetam novas altas, com o bitcoin chegando à marca dos US$ 125.000 – e além. Especialistas alertam, porém, contra a euforia exagerada de investidores, especialmente os iniciantes.
A volatilidade das criptomoedas, avisam, não vai acabar da noite para o dia: os preços vão continuar suscetíveis a mudanças macroeconômicas e geopolíticas – como as guerras que seguem na Ucrânia e em Gaza, e os crescentes conflitos no Oriente Médio. “Existe uma oportunidade de investimento, mas não se pode esquecer do risco envolvido”, diz Rabelo.
Além disso, uma possível redução da regulação pode levar a mais fraudes e golpes perpetrados por hackers. E o bitcoin tem um histórico de quedas depois de períodos de grande crescimento.
Outros fatores de consolidação
Não foram apenas as questões políticas que definiram a evolução das criptomoedas em 2024. Mesmo antes da campanha eleitoral, o mercado já passava por um período de recuperação e consolidação.
Colaborou para isso a decisão da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA de aprovar fundos negociados em bolsa que investem diretamente em bitcoin, ainda em janeiro. Os ETFs de bitcoin à vista de empresas como Fidelity Investments e BlackRock estabeleceram uma ponte entre o cripto e as finanças tradicionais e se tornaram uma maneira popular para os investidores mais conservadores também apostarem nesse tipo de ativo.
Ao longo do ano, a Ethereum consolidou sua posição como a principal plataforma para contratos inteligentes e DeFi. A Solana atraiu mais projetos relacionados a DeFi e jogos devido à sua velocidade e baixos custos de transação. E a XRP, da Ripple, ampliou sua presença global. Todas essas moedas foram beneficiadas pela alta do preço do bitcoin em novembro e dezembro. No total, o valor do mercado de criptomoedas dobrou em 2024, chegando a US$ 3,8 trilhões, segundo o portal CoinGecko.
Bilionários do cripto
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Com alta recorde do bitcoin, os 11 principais bilionários do setor ganharam US$ 38 bilhões em 2024, segundo estimativa da revista Forbes.
Desse total, cerca de US$ 24 bilhões (ou 63%) foram adicionados após 1º de setembro, com o setor ficando cada vez mais otimista com a vitória do republicano Donald Trump nas eleições de 5 de novembro.
O maior ganho percentual, segundo a revista, foi de Michael Saylor, entusiasta do bitcoin e presidente da MicroStrategy. As ações de sua empresa, que detém o maior estoque corporativo de bitcoin do mundo, avaliado em US$ 25,6 bilhões, subiram 464% no acumulado do ano. O patrimônio líquido de Saylor, que consiste em grande parte de bitcoin e sua participação na empresa, cresceu 291%, alcançando US$ 8,8 bilhões.
Brian Armstrong, CEO da Coinbase, também viu um aumento significativo em sua riqueza. Seu patrimônio subiu 80%, de US$ 7,6 bilhões, no início do ano, para US$ 13,8 bilhões, tornando-o a segunda pessoa mais rica no setor cripto.
O maior aumento em termos absolutos foi de Changpeng Zhao (CZ), ex-CEO da Binance que passou quatro meses em prisão federal como parte de um acordo com o Departamento de Justiça. A Forbes estima que sua fortuna saltou de US$ 47,3 bilhões, no início do ano, para US$ 63,1 bilhões.
Golpes do ano
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Entre janeiro e novembro, os golpes realizados por hackers foram responsáveis por perdas de US$ 1,49 bilhão. Entre os maiores crimes estão os cometidos contra a base de memecoins Normie (US$ 881 milhões), a plataforma de jogos e NFT PlayDapp (US$ 290 milhões) e a exchange indiana WazirX (US$ 234,9 milhões).
Em fevereiro, um acordo judicial obrigou os gêmeos bilionários das criptomoedas Cameron e Tyler a devolver US$ 1,1 bilhão aos clientes da corretora de criptomoedas Gemini, da qual são donos. O acordo foi selado com o Departamento de Serviços Financeiros de Nova York após a companhia ser processada por não conseguir evitar que milhares de seus clientes sofressem fraudes de terceiros.
Os gêmeos teriam prometido aos clientes da Gemini, por meio do programa Gemini Earn, empréstimos de ações de baixo risco e com retorno de 8%. O problema é que a Genesis Global Capital, responsável pelos empréstimos, era uma das principais clientes da FTX, que faliu no final de 2022.
Na opinião do superintendente do órgão financeiro, a Gemini falhou “ao não fazer diligência prévia em um terceiro irregular, prejudicando clientes que, de repente, não conseguiam mais ter acesso aos seus ativos”. Além da quantia bilionária devida aos clientes, os irmãos foram obrigados a pagar US$ 37 milhões em multa por falhas de compliance na Gemini.
E, por falar em FTX, seu fundador Sam Bankman-Fried continua cumprindo sua sentença de mais de 20 anos por fraude e má gestão de fundos. Apelos para redução de pena foram rejeitados em 2024.
E o Brasil?
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Um dos países mais avançados do mundo no que se refere à tecnologia financeira, o Brasil tem um cenário bastante favorável às cripto. “Há tempos nós vemos o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários se esforçando para entender esse mercado, e se manifestando de uma maneira positiva em relação às criptomoedas”, diz Rabelo. “Por aqui, a CVM permitiu a criação de fundos cripto, e depois de ETFs de cripto, muitos anos antes de os Estados Unidos autorizarem”, completa.
Embora o país não tenha capacidade de movimentar volume e preço de ativos digitais de forma relevante, ele é um importante player no ecossistema global. “É fácil constatar isso pelo interesse de empresas americanas, asiáticas e europeias em ingressar no nosso mercado”, afirma o CEO do Mercado Bitcoin. “Hoje há exchanges como Fireblocks entrando e investindo no país.” Rabelo acredita que a instabilidade no câmbio pode levar mais pessoas a apostarem nas criptomoedas. “Elas vão fazer isso para proteger o seu dinheiro dessas variações.”
Pesquisa da Consensys divulgada em dezembro revelou que 96% dos brasileiros já ouviram falar em criptomoedas e 43% destes investem ou já investiram neste tipo de moeda digital. “Os brasileiros começam a ter mais clareza sobre as empresas que operam nesse ecossistema. Eles sabem mais sobre os potenciais de valorização desse ativo, e também sobre os riscos envolvidos”, diz o CEO.
Um fator que deve aumentar ainda mais a confiança do público nas moedas digitais é o lançamento oficial do Drex, que deve acontecer no segundo semestre de 2025. “Quando o Banco Central e a CVM regulamentam uma infraestrutura em blockchain para o sistema financeiro brasileiro, isso faz com que as pessoas vejam todo o mercado de moedas digitais de outra forma”, diz o executivo.
Rabelo afirma que, em 2025, o país pode atingir o número de 58 milhões de investidores em ativos digitais – o que, segundo estimativas da empresa, representaria um aumento de mais de 5% em relação a 2024. “Esse crescimento faz todo o sentido diante de um cenário internacional favorável, em que o bitcoin pode chegar ao preço de US$ 250 mil.”
Por Marisa Adán Gil