O ano verá avançar as iniciativas para criar uma cibersegurança contra hackers espiões, carros autônomos que consigam se virar no trânsito, e computadores quânticos com cálculos ainda mais acelerados

Para descobrir quais seriam as 50 maiores tendências de 2025 e entender seu impacto para empresas, startups e investidores, a reportagem de Época NEGÓCIOS ouviu especialistas no Brasil e no exterior, consultou dezenas de relatórios de tendências e conferiu as principais discussões em eventos recentes de tecnologia. O resultado pode ser conferido em uma série de reportagens que teve início na segunda-feira (10) e continuará a ser publicada nos próximos dias. Confira a seguir as principais tendências na área de computação.

Avanços quânticos

Tendências 2024 - No dia 7 de junho de 2024, a Organização das Nações Unidas elegeu 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica (IYQ). — Foto: Divulgação
Tendências 2024 – No dia 7 de junho de 2024, a Organização das Nações Unidas elegeu 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica (IYQ). — Foto: Divulgação

No dia 7 de junho de 2024, a Organização das Nações Unidas elegeu 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica (IYQ). A ideia é celebrar os cem anos do primeiro desenvolvimento da mecânica quântica com uma série de atividades de conscientização sobre a tecnologia. Embora 2024 tenha sido marcado por avanços – a Microsoft e a Quantinuum desenvolveram um sistema de logical qubits que reduz os erros durante cálculos quânticos, abrindo o caminho para sistemas mais escaláveis –, 2025 promete levar a tecnologia a um novo patamar. A IBM prepara o lançamento do processador Kookaburra, que terá capacidade de 4.158 qubits – a versão anterior tinha 1.386 qubits. Ainda estamos longe dos cerca de 1 milhão de qubits necessários para um computador quântico “pleno”, mas esse salto torna mais próxima a possibilidade de uma máquina quântica com viabilidade de escala. Em tese, os computadores quânticos ajudarão a resolver alguns dos maiores problemas do mundo, como as doenças incuráveis e o aquecimento global.

A era dos biocomputadores

Máquinas que unem silício e neurônios são tendência nos próximos anos — Foto: Getty Images
Máquinas que unem silício e neurônios são tendência nos próximos anos — Foto: Getty Images

O que aconteceria se fosse possível reunir a versatilidade e eficiência do cérebro humano com os avanços da inteligência artificial? É essa a proposta por trás dos biocomputadores – que vão começar a mostrar suas habilidades este ano. É em 2025, por exemplo, que a australiana Cortical Labs deve começar a vender seus chips de computador chamados de DishBrain, que combinam silício com células neurais criadas em laboratório (a partir de células-tronco). Outro projeto da empresa, ainda sem data de entrega, é disponibilizar na nuvem o poder computacional gerado por clusters com 120 biocomputadores programados para trabalharem juntos, como se fossem um só. Outra companhia que está iniciando a exploração comercial de sistemas híbridos é a suíça FinalSpark. A sua proposta é unir minicérebros feitos em laboratório (chamados de organoides) a chips de silício. Segundo a empresa, as células cerebrais, conectadas a um sistema de abastecimento com nutrientes, serão capazes de realizar tarefas gastando 100 mil vezes menos energia que os computadores atuais. Por enquanto, o sistema tem como limitação o tempo: a cada cem dias, as células cerebrais precisam ser trocadas.

Computação espacial

Óculos inteligente da Halliday — Foto: Reprodução/Halliday
Óculos inteligente da Halliday — Foto: Reprodução/Halliday

A computação espacial é uma forma evolutiva de computação que combina mundo físico e experiências virtuais usando diferentes tecnologias. A proposta é permitir que os seres humanos interajam e se comuniquem de novas maneiras entre si e com as máquinas, além de dar aos aparelhos a capacidade de navegar o ambiente físico. “É um novo nível de integração entre homem e máquina”, diz Luis Mangi, VP da consultoria Gartner no Brasil. Uma das inovações vem da israelense PxE. A startup criou uma tecnologia capaz de fazer com que câmeras e sensores gerem imagens holográficas. A Gartner prevê que, em dez anos, a computação espacial deve movimentar US$ 1,7 trilhão.

Novos modelos de criptografia pós-quântica

Hackers poderão usar computadores quânticos para entrar em qualquer sistema — Foto: Getty Images
Hackers poderão usar computadores quânticos para entrar em qualquer sistema — Foto: Getty Images

O medo de que, no futuro, hackers usem os computadores quânticos para acessar dados sigilosos de governos, empresas e indivíduos impulsiona os projetos de criptografia pós-quântica. Algumas das soluções em desenvolvimento são tradicionais: instituições como o Banque de France (BdF) e o NIST (o Inmetro dos Estados Unidos) estudam algoritmos com cálculos matemáticos sem solução, para que funcionem como um “antivírus”. Outras querem derrotar a ciência quântica usando as propriedades da tecnologia. Pesquisadores da Universidade Técnica de Munique (TUM), na Alemanha, criaram um projeto chamado Quick-3, que converte dados em fótons. Esse método seria impossível de ser hackeado, porque a tentativa de interceptar fótons alteraria seu estado, evitando que eles fossem decifrados. A intenção dos pesquisadores é fazer os primeiros testes em 2025.

A computação de borda ganha espaço

 — Foto: Getty Images
— Foto: Getty Images

Ao longo da última década, um dos principais movimentos foi o de empresas levando seus dados e serviços para a nuvem – ou seja, para data centers muitas vezes distantes de onde suas operações acontecem. 2025 deverá assistir a uma aceleração do movimento contrário: a computação edge, ou de borda, na qual sensores, dispositivos e computadores processam as informações nas proximidades de onde elas são captadas. Pense, por exemplo, em um carro autônomo como os da Tesla ou Waymo. “Não dá tempo de esperar mandar as informações para a nuvem, processar lá e receber de volta, por causa da latência”, afirma Luis Díez, sócio da Bain & Company. O mesmo vale para operações que demandam ações em tempo real, como cirurgias robóticas, ou que precisam enviar quantidades maciças de dados por rede, como a indústria. Com o edge computing, elas se tornam mais rápidas e baratas. Uma empresa que está apostando nesse modelo é a GE Healthcare, que começou a usar a computação edge junto com IA em uma série de equipamentos como dispositivos de raios X. As máquinas escaneiam em tempo real as imagens dos pacientes e são capazes de detectar automaticamente se existem anomalias nos resultados. Já a Procter & Gamble usa o sistema edge em linhas de produção que abrigam máquinas de alta velocidade, com as de fraldas, por exemplo. A Estação Espacial Internacional, por outro lado, vai receber um sistema de computação de borda este ano – como forma de não depender mais do envio e recebimento de dados dos centros de controle na Terra.

Países buscam soberania cibernética

 — Foto: Getty Images
— Foto: Getty Images

A Guerra da Ucrânia evidenciou o que as principais agências governamentais do mundo já sabiam: a cibersegurança deve ser considerada uma questão de Segurança Nacional. “O exército russo criou uma unidade de guerra cibernética, encarregada de derrubar a rede bancária da Ucrânia”, afirma Marcos Simplício, professor da Poli-USP. Outros ataques incluíram centrais de energia, hospitais e linhas de telecomunicação, levando a Ucrânia a deslocar seus principais especialistas para conter as investidas. “2025 será o ano em que a segurança cibernética se tornará um elemento crítico para os países”, diz o autor de best-sellers e futurista alemão Bernard Marr em seu blog. Além das ações ligadas à guerra, os hackers também mantêm operações constantes contra determinados países. Nos EUA, relatório do CSIS (Center for Strategic and International Studies) diz que, em 2024, foram feitas 10 mil tentativas de ataques digitais ao governo. Para 2025, está prevista a segunda fase de implementação do Zero Trust, um rigoroso modelo de segurança para proteger todas as agências governamentais do país.

Por Marcelo Cabral