A trajetória da cofundadora da Mattel, cuja visão multifacetada transformou a indústria de brinquedos e a vida de milhares de mulheres
Antes da Barbie se tornar um fenômeno global, vendendo mais de um bilhão de unidades e conquistando gerações, havia uma mulher com uma ideia considerada ousada para os anos 1950: Ruth Handler, cofundadora da Mattel e responsável por transformar a indústria de brinquedos.
A inspiração veio de casa. Ruth observava sua filha, Barbara, brincar com bonecas de papel vestidas como adultas. Na época, as meninas tinham acesso apenas a bonecas em forma de bebê, brinquedos que, segundo ela, condicionam as meninas a imaginarem o papel da maternidade.
Ela acreditava que uma boneca com aparência adulta poderia ajudar meninas a se projetarem no futuro: ser o que quisessem, não apenas mães. Foi assim que nasceu a ideia da Barbie, batizada em homenagem à filha.
A Mattel, porém, não se convenceu de imediato. Executivos duvidaram que mães comprariam para suas filhas uma boneca com seios. A proposta só ganhou força quando Handler encontrou, durante uma viagem à Europa em 1956, a boneca alemã Bild Lilli, baseada em uma personagem de quadrinhos adulta. Ela trouxe o exemplar para os designers da Mattel como prova de que o conceito era viável.
Três anos depois, em 1959, Barbie estreava na Toy Fair de Nova York usando o famoso maiô listrado em preto e branco. O sucesso foi imediato. Em 1961, veio Ken, batizado em homenagem ao filho de Handler. A boneca evoluiu de ícone fashion para mulher multifacetada: já foi médica, astronauta e até candidata à presidência, sempre discutindo ideais de feminilidade e aspiração.
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Empresa de próteses mamárias
Mas Ruth Handler também foi uma figura complexa. Em 1978, ela enfrentou acusações federais de fraude e manipulação de dados financeiros na Mattel. Ao mesmo tempo, teve uma segunda carreira marcante após enfrentar um câncer de mama. Incomodada com a ausência de próteses realistas para mulheres mastectomizadas, fundou a empresa Nearly Me, dedicada a desenvolver e ajustar próteses personalizadas, um trabalho que ajudou milhares de mulheres, incluindo a primeira-dama Betty Ford.
Handler costumava dizer, com ironia, que viveu “de peito em peito”: dos seios da Barbie às próteses que criou após sua mastectomia.
A história da criadora ganhou novo destaque com o filme Barbie, de Greta Gerwig. Na produção, Ruth aparece como uma espécie de figura divina que orienta a personagem-título em momentos de crise existencial.
A diretora se inspirou na relação entre Ruth e sua filha para transformar a narrativa da boneca em uma reflexão sobre maternidade, criação e identidade. No filme, Ruth, interpretada por Rhea Perlman, é apresentada como a “deusa” de Barbie Land, a mulher que deu vida a uma boneca criada para ser aspiracional, mas que acabou se tornando um símbolo cultural complexo.
Ao deixar Barbie Land rumo ao mundo real, a personagem criada por Handler completa o arco imaginado pela própria inventora: uma boneca adulta capaz de escolher seu próprio futuro.
Foto: Originally published by the Los Angeles Times. Photographer unknown., CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons
Por: Patrícia Basilio


