Índice Nasdaq chegou a perder US$ 2,5 trilhões em um dia, e fuga das ações de companhias ligadas principalmente à estrutura física da IA atravessou a Ásia e a Europa; pressão começou nas empresas que dependem de novas obras e financiamento para sustentar a expansão da inteligência artificial
A onda de vendas que atingiu empresas de inteligência artificial nos Estados Unidos atravessou o mundo nesta sexta-feira (6). Fabricantes asiáticas de chips despencaram, bolsas interromperam negociações e investidores correram para títulos públicos, num movimento disparado pela perspectiva de que a vitória democrata nas eleições de meio de mandato torne mais lenta e cara a construção de data centers.
A pressão começou de maneira seletiva na quarta-feira, primeiro pregão após a eleição. Enquanto o S&P 500 avançou 1,6%, empresas diretamente dependentes da expansão física da IA já acumulavam perdas. A CoreWeave caiu 9,5%, a Applied Digital recuou 8,8% e a Cipher Digital despencou 21%, segundo a Reuters.
Na quinta-feira, o movimento rompeu essa fronteira. O Nasdaq caiu 5,5%, sua maior baixa diária desde abril de 2025, e perdeu US$ 2,5 trilhões em valor de mercado. O temor de novas restrições aos data centers juntou-se às dúvidas que já cercavam os gastos bilionários com IA e o prazo necessário para transformar esses investimentos em lucro.
O resultado foi uma mudança rápida na forma como o mercado passou a precificar a corrida pela inteligência artificial. Terrenos, conexões elétricas, licenças ambientais e acesso a financiamento ganharam peso diante das promessas de crescimento. Empresas que precisam construir e tomar dinheiro para avançar sentiram primeiro.
“O desenvolvimento da IA ficará mais caro, não desaparecerá”, afirmou à Reuters Mark Malek, diretor de investimentos da Siebert Financial. Segundo ele, a redução de incentivos fiscais e a exigência de que data centers assumam uma parcela maior dos custos de água e energia devem apertar as margens. “As empresas de IA mais vulneráveis são as tomadoras de empréstimos, não necessariamente as maiores gastadoras.”
A primeira rachadura apareceu na infraestrutura
A reação da quarta-feira mostrou como a eleição dividiu o próprio negócio da IA. Amazon e Microsoft subiram 6%, enquanto a Alphabet avançou 4,6%. Investidores avaliaram que uma expansão mais lenta poderia reduzir os gastos das gigantes de tecnologia e tornar mais valiosos os data centers que elas já possuem.
Na outra ponta estavam as companhias que vendem capacidade, eletricidade, equipamentos e novas instalações. A GE Vernova, fornecedora de turbinas e sistemas de energia, caiu 11,5%. A Constellation Energy perdeu 9,2%, e a Vistra recuou 15,4%.
Uma análise publicada pela Bolsa de Nova York descreveu o temor de uma desaceleração na construção da infraestrutura de IA como um dos principais motores da queda. Segundo a NYSE, as grandes compradoras de capacidade escaparam inicialmente porque um freio nos investimentos poderia aliviar suas despesas e preservar a vantagem competitiva que já acumularam.
Essa separação desapareceu no pregão seguinte. A Nvidia caiu 9,3% na quinta-feira. A AMD perdeu 17%, enquanto CoreWeave e Nebius recuaram cerca de 10% e 15%, respectivamente. Operadoras de data centers como Applied Digital, Cipher e IREN tiveram quedas superiores a 14%.
Na manhã desta sexta-feira, o contágio alcançou os maiores fornecedores asiáticos da cadeia. O índice Kospi, da Coreia do Sul, chegou a cair 8,8%, o que levou à interrupção temporária das negociações. Samsung perdeu 6,4%, e SK Hynix, uma das principais fabricantes de memórias usadas em sistemas de IA, despencou 10,4%, de acordo com a Reuters.
Em Taiwan, a TSMC atingiu o limite diário de baixa na abertura. No Japão, a queda das empresas de tecnologia arrastou o Nikkei. A pressão também chegou à Europa, onde o Stoxx 600 recuava 1,6% nas primeiras horas de negociação e o índice britânico FTSE 100 perdia 2,2%.
A intensidade variou conforme a exposição à inteligência artificial. Na Índia, o Nifty 50 encerrou o dia em alta de 2%, beneficiado pela queda do petróleo e pela participação menor das empresas de IA em sua composição.
O que as eleições mudaram para os data centers
A vitória democrata devolveu ao partido o controle do Congresso e ampliou seu poder em estados importantes para a infraestrutura tecnológica. O risco imediato não está apenas numa nova lei federal sobre inteligência artificial. Governadores, legislativos estaduais e prefeituras controlam licenças, zoneamento, incentivos fiscais, acesso à água e boa parte das decisões necessárias para construir um data center.
O caso mais importante é o Texas, que concentra grandes projetos e uma parcela relevante da capacidade planejada nos Estados Unidos. A governadora eleita Gina Hinojosa fez da resistência aos empreendimentos uma bandeira de campanha e defendeu a suspensão de novos data centers até que o Legislativo aprove proteções para as comunidades.
A proposta inclui o fim de benefícios fiscais concedidos a instalações de grande porte e maior participação dos moradores nas decisões sobre onde e como os projetos serão construídos. O Texas tornou-se um dos principais destinos da infraestrutura de IA pela disponibilidade de terrenos, energia e incentivos.
A resistência não ficou restrita às eleições para governador. Das 41 consultas sobre data centers realizadas nesta semana nos Estados Unidos, 40 terminaram com resultados contrários aos projetos ou favoráveis a maiores restrições, segundo um levantamento da Ballotpedia citado pela Reuters.
As votações trataram de proibições, regras de zoneamento, consumo de água, conexão à rede elétrica e exigências adicionais para a aprovação das instalações. O resultado transforma uma insatisfação local, alimentada pelo aumento das contas de energia e pela competição por recursos, em risco financeiro para uma cadeia que projetava crescer quase sem interrupções.
Apesar desse ambiente, o Google anunciou na quinta-feira um investimento de US$ 17 bilhões em seu primeiro data center no Wyoming. O estado, um reduto republicano, oferece um cenário político mais favorável à expansão. A instalação será construída com empresas de energia e contará com um projeto de células a combustível de 702 megawatts.
O anúncio coincidiu com a notícia de que a Microsoft decidiu não ampliar um acordo de data center no Texas com a Nscale. A decisão havia sido tomada meses antes, mas chegou ao mercado no momento em que investidores reavaliavam projetos da Nscale, da Nebius e da IREN.
Quando uma licença vira risco financeiro
Um atraso na construção adia o momento em que as máquinas começam a gerar receita. Também prolonga o pagamento de juros, muda encomendas de chips e exige que empresas encontrem novas fontes de dinheiro antes de colocar a infraestrutura para funcionar.
A IREN oferece uma dimensão desse desafio. Ao divulgar seus resultados trimestrais na quinta-feira, a companhia informou que planeja investir US$ 15 bilhões no restante de seu exercício fiscal. A empresa diz ter US$ 9 bilhões cobertos por caixa, financiamentos comprometidos e adiantamentos de clientes. Os outros US$ 6 bilhões deverão vir de fontes que ainda precisam ser contratadas e permanecem sujeitas às condições do mercado.
As ações da IREN acumulavam queda de 26% nos dois primeiros pregões após a eleição. A companhia também adiou para janeiro uma meta operacional anteriormente prevista para o fim de 2026, depois de uma mudança solicitada por um cliente e de problemas com fornecedores. A entrega ainda pode avançar até fevereiro, segundo o comunicado de resultados da empresa.
A CoreWeave sentiu a pressão também no mercado de crédito. O custo para proteger sua dívida contra um eventual calote atingiu o recorde de 1.267,9 pontos-base, de acordo com dados da S&P Global Market Intelligence publicados pela Reuters. A alta indica que investidores passaram a cobrar mais para assumir o risco financeiro da companhia.
Na Ásia, o custo do seguro contra calote da SoftBank chegou ao maior nível em quatro anos. O grupo japonês tem US$ 64,6 bilhões investidos na OpenAI, controla 90% da fabricante de chips Arm e financia a construção de data centers por meio da SB Energy. Suas ações caíram 10,8% nesta sexta-feira e já perderam quase metade do valor desde o início de setembro.
A turbulência alcançou ainda empresas que pretendem buscar dinheiro novo. Potenciais investidores passaram a pressionar por um desconto na avaliação de US$ 1,5 trilhão discutida para a abertura de capital da Anthropic e questionam se a criadora do Claude conseguirá iniciar as apresentações do IPO na próxima semana.
Os mercados ensaiaram uma recuperação antes da abertura de Wall Street nesta sexta-feira. Às 8h24 de Brasília, os futuros do Nasdaq 100 subiam 1,4%, enquanto a Nvidia avançava 4,5% no pré-mercado. A trégua veio depois que quase US$ 3 trilhões foram apagados do valor das empresas do S&P 500 no pregão anterior, segundo a Reuters.
Por: Daniel Pinheiro


