segunda-feira, 19 outubro, 2026
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Por dentro do centro de pesquisa da Danone que simula estômagos e testa até 15 mil versões de produtos

Em Utrecht, na Holanda, laboratório reproduz a digestão de bebês e pacientes, processa 650 mil amostras por ano e desenvolve produtos que podem levar até 15 anos para chegar ao mercado

Ao chegar ao Centro de Pesquisa da Danone em Nutrição Especializada em Utrecht, na Holanda, é fácil perceber que se trata de um grande laboratório de testes de produtos. Ao lado esquerdo de quem entra, um vidro divide os funcionários e visitantes da planta industrial piloto, uma espécie de miniatura de uma grande fábrica. É lá onde são feitos os testes de composição de produtos e desenvolvidos os processos industriais para produção em larga escala.

“A planta piloto não é uma fábrica. Nela, os produtos podem ser provados, mas não são produzidos em volume para estudos clínicos longos, que exigem um produto sempre idêntico”, comenta Michael Koopmans, diretor do Centro Global de Pesquisa e Inovação da Danone em Utrecht, que guiou um grupo de jornalistas e criadores de conteúdo em ciência pelo prédio.

A planta piloto de Utrecht tem capacidade, por exemplo, de produção de 100 litros por hora de líquidos, uma fração do que as fábricas produzem no dia a dia. A fábrica de Zoetermeer, na Holanda, por exemplo, produz 10 mil litros por hora.

Em compensação, é muito mais flexível do que uma operação real. Enquanto uma fábrica opera um portfólio fixo de produtos, a planta piloto trabalha com múltiplos testes. “A fábrica faz 25 produtos. Eu consigo fazer 15 mil variantes, ajustando alguns botões”, exemplifica Koopmans.

No laboratório industrial, os especialistas trabalham com uma lista de cerca de 2.140 ingredientes aprovados. Só o açúcar cristal tem uma especificação de 18 páginas, conta Koopmans. Como um produto pode combinar dezenas de ingredientes, a empresa precisa saber exatamente o que há em cada um, de contaminantes a bactérias, para manter as impurezas baixas e dentro das normas de cada país.

A escala menor também pode esconder dificuldades na produção em grandes volumes. Koopmans conta o caso de um produto com muitas fibras que rodou sem problemas no piloto, mas parou a fábrica devido à distância entre o tanque e a máquina era longa demais para a bomba. Por isso, cada produto passa por três rodadas completas na fábrica antes de ser liberado, e a fábrica não pode mudar receita, processo, embalagem ou fornecedor sem voltar ao centro de pesquisa.

Antes de chegar ali, contudo, há um longo caminho por outros corredores e salas do prédio, a começar pelas pesquisas acadêmicas e estudos clínicos feitos por anos a fio.

Alguns projetos podem levar 15 anos entre a ideia e a venda comercial. Reproduzir o glóbulo de gordura do leite materno, por exemplo, um dos projetos mais desafiadores da equipe de Utrecht pela complexidade de recriar estruturas, levou muitos anos e exigiu envolvimento conjunto de cientistas, desenvolvedores de produto e desenvolvedores de processo. “É aí que surgem inovações realmente fantásticas”, afirmou Koopmans. A empresa precisou desenvolver internamente o processo, porque não existiam máquinas para fazer esse trabalho.

Hoje, a Danone tem mais de cem estudos em andamento, a maioria ligados à nutrição especializada. Parte deles envolve testes de produtos e parte é apenas coleta de dados, como registros de mães sobre a dieta e o comportamento dos bebês.”

No terceiro andar, uma grande caixa cinza abriga um equipamento usado, entre outras análises, para identificar os oligossacarídeos do leite materno – as fórmulas infantis é um dos carro-chefe, tanto de vendas quanto de inovação. “Se eu vendesse essa máquina, poderia comprar uma casa em Blaricum”, disse Koopmans, referindo-se a uma das regiões mais caras da Holanda.

No prédio ao lado, da Universidade de Utrecht, outras 13 máquinas iguais são usadas em pesquisas com borracha, petróleo e gases. A da Danone é dedicada exclusivamente à pesquisa com humanos e, quando é preciso, a equipe recorre à universidade.

Questionado se a empresa vende serviços de pesquisa e teste de produtos a terceiros, Koopmans explica que esta não é a intenção da Danone, ainda que faça pesquisas em parceria com outras organizações quando há benefício para ambas. “O que fazemos é de ponta. Se começarmos a vender, estaremos minando a nós mesmos”, afirma.

Um estômago de laboratório

Além da mini-fábrica no subsolo, outra sala curiosa no prédio fica no último andar. É onde está a máquina que simula o estômago e uma parte do duodeno, a primeira parte do intestino, onde acontece cerca de 90% da absorção dos nutrientes, segundo Koopmans. Uma segunda, mais antiga, construída no fim dos anos 1980 com a TNO, instituto de pesquisa holandês financiado pelo governo, simula também o intestino grosso e é menos usada. ‘Ela fede’, brincou o diretor. A mais nova para no duodeno, é mais rápida e, segundo ele, ‘não tem cheiro’. As máquinas foram apelidadas de “Tim” e “Tom”.

Em funcionamento, é possível ver o equipamento “engolir” e a mistura mudar de cor, enquanto seringas injetam enzimas e ácido. Juntas, elas recriam o sistema digestivo de um bebê, de um prematuro ou de uma paciente com câncer, inclusive com o tipo específico da doença e o tratamento, grupos cujas necessidades especiais são objeto de estudo da divisão de Nutrição Especializada da Danone globalmente.

O objetivo é testar os produtos antes de irem para o mercado e permitir que os cientistas entendam, em detalhes, como eles são absorvidos pelo organismo humano. Em um dos testes, conta Koopmans, a máquina simulou um bebê nascido de cesárea, sem bactérias, e mostrou que as bactérias do produto chegavam vivas ao intestino.

A Danone usa esse tipo de simulador há décadas. Segundo Koopmans, a tecnologia também é usada por outras empresas, como a Coca-Cola. Contudo, nem todo produto passa por ali. “Tim” e “Tom” verificam a função básica, o “motor” de um produto, mas as variações desenvolvidas a partir desse mesmo motor para diferentes doenças não precisam repetir a etapa.

A empresa também faz simulações em computador, se valendo, por exemplo, de tecnologia de gêmeos digitais (digital twins), que possibilita a simulação de cenários sem necessidade de uso de materiais e insumos, uma das práticas que também têm contribuído para diminuir o desperdício na área de testes em todos os setores da economia.

Mesmo assim, a Danone não abre mão dos testes físicos. “O mais importante é que precisamos provar segurança e confiabilidade. A simulação é boa, mas nunca é suficiente”, disse Koopmans.

A empresa tem com praxe testar a função básica de um produto em adultos saudáveis, na unidade de pesquisa clínica nutricional do centro. Ele exemplifica com o caso de um voluntário que recebe, em jejum, leite de vaca em uma semana, um produto com proteína vegetal na seguinte e, na terceira semana, um placebo. Com a coleta de sangue feita após a ingestão, é possível identificar que se a proteína vegetal tem o mesmo efeito da animal na síntese muscular. Com finalidade semelhante, em outra sala, os voluntários fazem testes com exercício físico. “Essa área deve dobrar de tamanho a partir do fim de novembro”, conta.

Nos estudos clínicos completos, é preciso coletar amostras de mais de 1 mil pacientes por três anos. Essas amostras chegam congeladas a Utrecht de hospitais de vários países, inclusive do Brasil. O laboratório, que conta com cinco pessoas, analisa as amostras dos estudos clínicos, como fezes, sangue, urina e saliva, processa cerca de 650 mil amostras por ano. “É inacreditável, mas eles têm muita automação e muita interpretação com inteligência artificial”, disse.

Depois de aprovado, o produto é acompanhado durante toda a validade, que a empresa tenta levar a um ano para líquidos e dois anos para pós. Se aparecer degradação antes, o prazo é encurtado para 16 ou 14 meses, por exemplo. “O rótulo é a nossa Bíblia”, afirma Koopmans. Segundo ele, se o produto deixa de corresponder ao que está no rótulo, perde a eficácia comprovada clinicamente.

A rede global de pesquisa e inovação da Danone reúne 2.100 especialistas em mais de 40 países, distribuídos entre centros como os de Utrecht, na Holanda, e Paris-Saclay, na França, e outros seis polos especializados em áreas como embalagens, nutrição de precisão, lácteos e produtos de base vegetal. No Brasil, são quase 40 profissionais dedicados à área.

O trabalho da rede resultou em cerca de 5 mil patentes e pedidos de patente em todo o portfólio do grupo. Só em 2025, a companhia registrou 45 novas patentes e lançou mais de 900 produtos em 50 países. Na divisão de Nutrição Especializada, foram 108 publicações em revistas científicas revisadas por pares em 2023.

“É um sinal importante do investimento que fazemos em ciência e tecnologia”, afirma Alma Nauta, diretora sênior de Assuntos Médicos e Nutrição Clínica da divisão.

Menos açúcar, mais proteína

Com a demanda crescente por produtos mais saudáveis e por alimentos que ajudam na performance física, empresas de alimentos têm apostado nesse portfólio. Wittica conta que a área de lácteos da Danone “ultimamente está muito voltada para a proteína” e que a empresa lidera a discussão sobre redução de açúcar no Brasil, “apesar de a população brasileira ter um apetite por açúcar gigantesco”. “Tem muita tecnologia por trás dos nossos produtos que as pessoas às vezes não percebem”, diz ele, citando o iogurte YoPRO.

Globalmente, o portfólio de alta proteína da Danone cresceu dois dígitos na Europa e na América do Norte em 2025, segundo os resultados anuais do grupo. Na América Latina, região que inclui o Brasil, a área de lácteos teve forte crescimento apoiado pelas plataformas de alta proteína, segundo a companhia.

A Danone tem metas específicas de saúde para desenvolver produtos cada vez mais saudáveis. Uma dessas metas é ter 95% do portfólio infantil com menos de 10 gramas de açúcar para cada 100g até 2025.

Nos últimos 25 anos, conseguiu reduzir cerca de 50% do açúcar da fórmula do Danoninho, preservando nutrientes como cálcio e vitamina D e se tornando o produto petit suisse com menor teor de açúcar do mercado. “A evolução de Danoninho é um exemplo do trabalho contínuo de pesquisa, inovação e reformulação do portfólio da Danone no Brasil. Esse é um processo que vem acontecendo gradualmente”, afirma Camilo Wittica, vice-presidente de Assuntos Institucionais da Danone. A nova fórmula do Danoninho, lançada em 2025, tem 10 g de açúcar por 100 g de produto e não usa adoçantes, segundo comunicado da empresa na ocasião.

As novas embalagens também são fruto de inovação em prol da sustentabilidade. A Danone lançou uma nova embalagem de 100g para suas linhas lácteas (como Activia, Danoninho e Actimel) desenvolvida em parceria com o Cazoolo (laboratório de design de embalagens circulares da Braskem), a Amazu Biomimicry e a Graham Packaging com 8% menos plástico em relação à versão anterior. A inovação combina desempenho técnico, redução de impacto ambiental e design biomimético, inspirado em estruturas da natureza, com as colmeias de abelhas.

*A repórter viajou a convite da Danone

Foto: Divulgação/Danone

Por: Naiara Bertão — Em Ultrech, na Holanda*

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