terça-feira, 15 setembro, 2026
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Não há água suficiente para construir cidades na Lua, alertam cientistas

Mesmo no cenário mais otimista, uma cidade lunar com 1 milhão de habitantes esgotaria suas reservas de água em pouco mais de um século, segundo pesquisadores

Planos de construir grandes cidades na Lua podem esbarrar em um recurso básico: água. Mesmo considerando estimativas generosas sobre as reservas disponíveis e sistemas avançados de reciclagem, uma cidade lunar com 1 milhão de habitantes teria água suficiente para pouco mais de 100 anos.

A conclusão é de uma análise dos pesquisadores Martin Elvis e Jonathan McDowell, apresentada em artigo na revista Frontiers in Space Technologies. Os cientistas fizeram cálculos para estimar por quanto tempo assentamentos com 100 mil ou 1 milhão de habitantes poderiam se sustentar na Lua considerando principalmente duas necessidades: água e energia.

A existência de água congelada nos polos lunares é conhecida há mais de uma década. Próximo aos polos existem dezenas de crateras cujos pisos não recebem luz solar direta há cerca de 4 bilhões de anos. Algumas dessas regiões permanecem abaixo dos -163°C e funcionam como “armadilhas frias”, capazes de preservar gelo por períodos extremamente longos.

Missões que orbitam a Lua vêm mapeando essas reservas desde 2013. Nas estimativas mais generosas consideradas pelos pesquisadores, poderia haver até 1 bilhão de toneladas de água.

A descoberta alimentou planos ambiciosos para a ocupação permanente do satélite. Jeff Bezos, fundador da Blue Origin, já falou sobre levar indústrias pesadas para a Lua, enquanto Elon Musk, CEO da SpaceX, defende a possibilidade de criar “cidades autossustentáveis” fora da Terra. Segundo os pesquisadores, porém, existe uma grande diferença entre estabelecer pequenas bases e construir cidades lunares.

Energia não seria o principal problema

Um dos resultados mais otimistas do estudo diz respeito à eletricidade. As bordas das crateras próximas às regiões permanentemente escuras recebem luz solar quase continuamente. Segundo os pesquisadores, torres com cerca de um quilômetro de altura, cobertas por painéis fotovoltaicos, poderiam produzir aproximadamente 3 gigawatts de eletricidade.

Os autores também afirmam que seria possível fabricar painéis solares na própria Lua, onde existe abundância de silício. Essa disponibilidade de energia poderia, inclusive, abrir espaço para centros de dados de inteligência artificial instalados próximos às regiões mais iluminadas. Para os pesquisadores, essa infraestrutura poderia representar o começo de uma economia lunar.

A situação muda quando os cientistas fazem as contas para a água. Sem reciclagem, mesmo partindo da estimativa extremamente otimista de 1 bilhão de toneladas disponíveis, uma grande cidade lunar conseguiria sobreviver apenas alguns anos.

Com um sistema capaz de reciclar 98% da água, eficiência comparável à alcançada na Estação Espacial Internacional (ISS), uma cidade com 1 milhão de habitantes ainda esgotaria toda a reserva em pouco mais de um século.

E esse já é um cenário bastante otimista. As melhores estimativas atuais para a quantidade de água existente na Lua são cerca de 30 vezes menores que o limite de 1 bilhão de toneladas usado no cálculo mais favorável. Nesse cenário, o tempo até o esgotamento também cairia aproximadamente na mesma proporção.

Segundo os pesquisadores, isso significaria que mesmo uma cidade relativamente pequena poderia ficar sem água depois de apenas cerca de uma década. Assentamentos menores seriam mais viáveis. Uma vila lunar com mil habitantes, ou mesmo uma cidade com cerca de 10 mil pessoas, poderia permanecer sustentável durante vários séculos ou mais.

Há solução?

Os pesquisadores apontam algumas possibilidades para ampliar a duração das reservas. Uma delas seria aumentar em cinco vezes ou mais a eficiência da reciclagem de água. Outra seria reduzir o consumo por meio de novas técnicas, como agricultura vertical. Também seria possível importar água de asteroides acessíveis.

Mas a alternativa considerada mais promissora pelos autores é outra: encontrar mais água na própria Lua. As técnicas utilizadas atualmente para procurar reservas lunares conseguem investigar apenas alguns metros abaixo da superfície. Por isso, antes que projetos de grandes cidades lunares possam sair do papel, será necessário descobrir quanto gelo realmente existe abaixo da superfície. “Se os planos ambiciosos dos bilionários do espaço forem concretizados, encontrar mais água será o primeiro passo”, afirma Elvis.

Foto: Divulgação/NASA

Por: Rennan Julio

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