quinta-feira, 20 agosto, 2026
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Amazon compra e destrói livros em massa para treinar IA, diz site

Investigação rastreou livro raro até galpão em Las Vegas onde obras teriam as lombadas cortadas para digitalização em escala.

A recente febre de compras em massa de livros físicos por empresas de inteligência artificial ganhou mais um capítulo nesta semana. Uma investigação do portal 404 Media rastreou um exemplar raro enviado em julho dentro de um lote de mil livros e descobriu que a encomenda terminou em um galpão logístico da Amazon em Las Vegas, nos Estados Unidos.

A instalação seria usada pela Amazon exclusivamente para digitalizar e destruir milhões de livros, extraindo textos escritos por humanos para treinar modelos de IA. O processo permitiria às empresas obter grandes volumes de dados de alta qualidade em meio à crescente escassez de conteúdo confiável para treinamento na internet.

O experimento foi conduzido após o mercado editorial registrar um aumento atípico nas vendas de lotes volumosos. Suspeitando desse aquecimento incomum do setor, a equipe do site conseguiu despachar um dispositivo Apple AirTag oculto no interior de um livro em uma encomenda de mil unidades. A transação ocorreu pelo Biblio, um grande mercado online de publicações independentes.

Empresa seria focada na destruição de livros

A jornada do rastreador terminou nas mãos da VGT3, uma equipe que opera dentro de um complexo logístico da Amazon. Segundo relatos de profissionais do local, a única função dessa unidade é processar e converter livros físicos em pacotes de dados digitais.

Na prática, para otimizar a velocidade de inserção das páginas em scanners industriais de alta performance, os funcionários cortam todas as lombadas e encadernações, danificando o material original após a digitalização.

A identidade visual adotada pela equipe não tenta ocultar o procedimento. Segundo o 404 Media, o logotipo da VGT3 é um dinossauro segurando um livro, simulando o ato de rasgar e devorar o material.

Imagem mostra o logotipo de uma unidade industrial chamada VGT3. O logo mostra um dinossauro destruindo um livro.
Logotipo da unidade da Amazon faz alusão à destruição de livros (imagem: reprodução/404 Media)

Procurada pelo portal, a Amazon se limitou a confirmar em nota que realiza a compra de publicações por canais comerciais legítimos para “ajudar a desenvolver e aprimorar os produtos e serviços que os clientes utilizam”.

Por que as gigantes da tecnologia preferem livros físicos?

Publicações editadas e lançadas antes do boom da IA em 2022 representam uma fonte limpa e garantida de linguagem puramente humana. Treinar algoritmos de nova geração utilizando conteúdos extraídos da web hoje já envolve o risco de absorver textos gerados por máquinas. A longo prazo, isso poderia degradar a capacidade lógica dos modelos de linguagem.

Além do fator qualidade, a questão financeira e jurídica impulsiona a prática. Anteriormente, as gigantes da tecnologia recorriam a bibliotecas clandestinas da internet para “raspar” arquivos digitais gratuitamente. No entanto, o cerco judicial fechou: documentos revelaram que a Anthropic gerenciava uma iniciativa interna para digitalizar todos os livros do mundo.

A execução esbarrou em direitos autorais e resultou em um acordo em que a dona do Claude foi multada em US$ 1,5 bilhão (R$ 7,6 bilhões) por manter uma base com 7 milhões de livros pirateados. Em paralelo, a Meta também enfrentou processos após o vazamento de um acervo ilegal com quase 82 terabytes de obras literárias.

Diante das multas bilionárias por quebra de direitos autorais, adquirir montanhas de cópias físicas legalmente virou uma alternativa mais barata e juridicamente segura na visão das corporações. Uma decisão recente da Justiça americana sinalizou que utilizar exemplares adquiridos lícitamente para treinar modelos de IA pode ser interpretado como “uso justo”, abrindo brechas legais para a continuidade da prática.

Por: Gabriel Sérvio

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