sexta-feira, 10 julho, 2026
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O ‘cérebro’ da Copa: central secreta monitora seleções, torcedores e sofre 500 milhões de ataques virtuais por dia

Centro de Operações da Fifa acompanha deslocamentos, estádios, ingressos e segurança em tempo real; acesso é restrito e visitantes não podem entrar com celulares

A primeira impressão de quem entra no Centro de Operações da Copa do Mundo, em Miami, é a de estar em uma sala de comando militar. Telas gigantes ocupam as paredes, centenas de profissionais acompanham dados em tempo real e imagens de drones mostram ônibus de seleções, estádios e movimentações de torcedores. O acesso é restrito, e celulares ou qualquer equipamento capaz de registrar informações são proibidos.

A primeira impressão de quem entra no Centro de Operações da Copa do Mundo, em Miami, é a de estar em uma sala de comando militar. Telas gigantes ocupam as paredes, centenas de profissionais acompanham dados em tempo real e imagens de drones mostram ônibus de seleções, estádios e movimentações de torcedores. O acesso é restrito, e celulares ou qualquer equipamento capaz de registrar informações são proibidos.

A missão da equipe, no entanto, é passar despercebida.

— Nosso trabalho é sermos invisíveis e garantir que tudo funcione perfeitamente — explicou Nacho Fresco, diretor de tecnologia da Fifa, ao jornal espanhol “As”, que teve acesso ao centro.

A quantidade de informações processadas ajuda a explicar o sigilo. Em uma das telas observadas durante a visita, imagens aéreas acompanhavam dois ônibus de seleções. Em um deles, cães farejadores realizavam uma inspeção antes da partida. O outro já seguia em direção ao estádio, enquanto o sistema identificava possíveis problemas ao longo do trajeto.

Outros painéis exibiam imagens das arquibancadas e das áreas externas das arenas. A entrada dos torcedores era acompanhada em tempo real: quantas pessoas haviam passado por cada ponto de controle, quantas já estavam dentro do estádio e quantas ainda eram esperadas.

As informações são processadas por sistemas desenvolvidos pela Lenovo, parceira tecnológica da Fifa, com o auxílio de inteligência artificial. Os dados são distribuídos para os profissionais responsáveis por áreas como segurança, transporte, logística, viagens e venda de ingressos.

Cada funcionário recebe apenas as informações relacionadas ao próprio departamento. A integração, porém, permite que diferentes setores reajam ao mesmo tempo quando surge um imprevisto.

Um atraso provocado pelo clima, por exemplo, não afeta apenas o horário de um voo. O transporte terrestre pode precisar esperar, sessões de treinamento são alteradas, equipes de segurança mudam seus planejamentos e outras atividades precisam ser reorganizadas.

A alteração de um único dado pode provocar um efeito dominó em diferentes cidades e até países. A função do centro é identificar o problema e coordenar as mudanças antes que ele comprometa a operação do torneio.

A estrutura tecnológica começou a ser preparada dois anos antes da Copa. Segundo Myles Spittle, responsável pela implantação e manutenção dos sistemas da Lenovo, aproximadamente 25 mil computadores e tablets foram enviados já configurados para estádios e outras instalações oficiais.

Os equipamentos precisaram atender às exigências da Fifa, das seleções e das autoridades de segurança dos três países.

— Trabalhamos em estreita colaboração não apenas com a Fifa, mas também com as equipes e as agências de segurança para garantir que os dispositivos atendessem aos requisitos específicos — explicou.

A instalação começou cerca de quatro semanas antes da primeira partida em cada sede. Engenheiros chegaram a estádios ainda sem parte da estrutura necessária e montaram redes, equipamentos e sistemas de monitoramento.

Especialistas em inteligência artificial, programação e desenvolvimento também foram distribuídos pelas cidades. Com a chegada das fases decisivas, parte da operação já começou a seguir o caminho inverso: os equipamentos estão sendo desmontados nos estádios que não receberão mais jogos.

O processo havia sido testado durante o Mundial de Clubes de 2025, também realizado nos Estados Unidos. A dimensão da Copa, no entanto, criou um desafio diferente. Cada uma das 16 sedes teve uma espécie de inauguração própria. Em todas, os sistemas precisavam funcionar sem falhas desde a primeira partida.

— A abertura no Estádio Azteca foi incrivelmente tensa. Todos estavam constantemente preocupados para que tudo funcionasse. Como se diz, garantindo que ninguém tropeçasse em nenhum cabo. E tivemos essa sensação 16 vezes — afirmou Santiago Manso, diretor de esportes da Lenovo.

O trabalho também envolve ameaças que não aparecem nas imagens dos estádios ou nas rotas dos ônibus. A cibersegurança se tornou uma das áreas mais importantes da operação.

Segundo a Fifa, os sistemas ligados à Copa recebem aproximadamente 500 milhões de tentativas de ataques virtuais por dia.

O número representa uma mudança de escala em relação ao Mundial do Catar. Durante toda a edição de 2022, foram registrados cerca de 1,1 bilhão de incidentes do tipo. Na atual Copa, o volume equivalente pode ser alcançado em pouco mais de dois dias.

A dimensão do torneio, a quantidade de sistemas conectados e o cenário geopolítico aumentaram o nível de ameaça.

— Recebemos cerca de 500 milhões de ciberataques por dia. Na Copa do Mundo do Catar, também tivemos um número muito alto, aproximadamente 1,1 bilhão durante todo o torneio. Agora, o volume é ainda maior. Também precisamos levar em consideração a atual situação geopolítica mundial — explicou Fresco.

Apesar do número, a Fifa afirma que os sistemas seguem funcionando normalmente. O objetivo é detectar e neutralizar ameaças antes que provoquem impactos na venda de ingressos, nas operações dos estádios, no transporte ou em outras áreas da competição.

A tecnologia também transformou a maneira como a Copa é administrada. Pela primeira vez, ferramentas de inteligência artificial estão integradas a praticamente todas as etapas da operação, da análise de dados à identificação de riscos logísticos.

A estrutura funciona como um sistema nervoso descentralizado. Informações são produzidas em centenas de locais espalhados pelos três países e enviadas ao núcleo em Miami. A partir dali, decisões e alertas retornam para profissionais em estádios, centros de treinamento, hotéis e aeroportos.

Durante uma visita ao prédio antes da abertura da Copa, Gianni Infantino comparou a central ao órgão responsável por manter o torneio vivo.

— Vocês são responsáveis por coordenar tudo e garantir que funcione sem problemas, sem contratempos e perfeitamente. Vocês são o núcleo. O coração da Copa do Mundo — afirmou o presidente da Fifa.

Foto: Reprodução/YouTube

Por: Agência O Globo

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