quinta-feira, 23 julho, 2026
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Obsessão por inteligência artificial já afeta casamentos

Relatos do Vale do Silício mostram como a obsessão por IA pode alterar rotina, cuidado e conflitos dentro de casa.

A corrida da inteligência artificial começou a afetar a rotina de famílias ligadas ao setor de tecnologia, principalmente no Vale do Silício. Relatos de esposas, terapeutas e especialistas em trabalho mostram tensão doméstica, excesso de jornada, ansiedade profissional e relações atravessadas por chatbots.

O trabalho com IA invadiu a casa

O fenômeno aparece em casais nos quais o homem trabalha com IA, tenta entrar no setor ou sente que precisa participar dessa onda.

O padrão relatado envolve longas jornadas, conversas constantes sobre modelos de linguagem e pouco espaço para família. A tecnologia deixa de ser apenas trabalho e vira tema permanente dentro de casa.

Em alguns casos, a parceira assume mais tarefas domésticas e emocionais. Ela cuida da casa, dos filhos e da estabilidade do casal enquanto o parceiro tenta acompanhar uma área que muda rápido.

O problema não envolve apenas falta de interesse por tecnologia. Ele envolve divisão de tempo, cuidado e atenção.

Um boom com marca de gênero

O setor de IA ainda tem forte predominância masculina. Um relatório citado no debate aponta que 71% dos profissionais com habilidades em IA são homens. Também há cerca de 35.000 vagas abertas na área nos Estados Unidos.

À Wired, Yana van der Meulen Rodgers, especialista em trabalho e emprego na Rutgers University, nos EUA, avalia que o boom criou uma tempestade perfeita nas famílias. Para ela, o mercado reforça a figura antiga de o profissional ideal que entrega todo o tempo à próxima grande transformação.

“Alguém que trabalha muitas horas, dando tudo de si a essa nova força”, disse Rodgers. “Isso significa menos tempo em casa para o parceiro, menos tempo para o trabalho de cuidado.”

A especialista também aponta outro risco. Mulheres tendem a usar IA generativa cerca de 20% menos que homens, em parte por ocuparem mais áreas como educação, saúde e serviços sociais.

A ansiedade também pesa

Nem todos os homens ligados à IA ganham dinheiro com isso. Muitos tentam entrar no setor, mudar de carreira ou construir startups sem retorno imediato.

Esse cenário cria pressão financeira e emocional. Quando a tentativa falha ou o emprego fica incerto, a parceira pode virar rede de apoio principal.

Rodgers afirma que a perda de emprego costuma vir acompanhada de sintomas depressivos. Dentro de casa, outra pessoa passa a sustentar parte desse impacto.

O resultado é uma carga dupla. A parceira enfrenta a ausência quando ele trabalha demais e o sofrimento quando ele se sente descartado pelo mercado.

Chatbots entram até na terapia

Terapeutas familiares relatam aumento de conflitos entre casais ligados ao setor de tecnologia. As queixas envolvem falta de limites, sensação de abandono e brigas que parecem maiores que o próprio casal.

Bridget Balajadia, terapeuta em San Jose, descreve a pressão como permanente. “Nesta indústria, você fica alcançável o tempo todo”, afirmou. “Você pensa nisso no banho, quando está fazendo sexo, isso nunca sai.”

Um detalhe chama atenção é que algumas mulheres passaram a usar o ChatGPT para processar conflitos conjugais antes de falar com terapeutas.

Balajadia vê risco nesse uso. O chatbot tende a validar a dor da pessoa, mas pode não desafiar padrões que mantêm o conflito.

O que isso mostra sobre a IA

A IA promete automatizar tarefas, aumentar produtividade e criar novas empresas. Dentro de casa, ela também pode intensificar desigualdades antigas.

O ponto prático é que a tecnologia que exige atenção total cobra esse custo de alguém. Muitas vezes, essa conta aparece no cuidado com filhos, na rotina doméstica e na saúde emocional do casal.

A discussão não pede rejeição à IA. Ela pede limites claros. Trabalho, família e ferramentas digitais precisam ocupar lugares diferentes, antes que o chatbot vire o terceiro participante da relação.

Por: Hemerson Brandão

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