Revisão reúne evidências humanas, animais e laboratoriais e reforça alerta sobre vape com nicotina.
Uma grande revisão liderada pela UNSW (Universidade de Nova Gales do Sul), na Austrália, concluiu que cigarros eletrônicos com nicotina provavelmente causam câncer de pulmão e da cavidade oral. A análise, publicada na revista Carcinogenesis, reuniu evidências humanas, estudos com animais e testes de laboratório para avaliar se o vape oferece risco próprio.
O alerta vai além do cigarro comum
O ponto é que quem usa vape ou convive com adolescentes e jovens adultos, trocar o cigarro tradicional pelo cigarro eletrônico não elimina o risco de saúde.
A revisão questiona a ideia de que o vape funciona apenas como alternativa menos danosa ao tabaco. Os autores analisaram se os dispositivos podem contribuir diretamente para o surgimento de câncer.
A conclusão não apresenta um número exato de risco. Porém, o estudo afirma que ainda faltam pesquisas longas para estimar quantos casos de câncer podem ter relação com o vape.
“Considerando todos os achados, do monitoramento clínico aos estudos em animais e dados mecanísticos, os cigarros eletrônicos provavelmente causam câncer de pulmão e câncer oral”, afirmou o professor Bernard W Stewart, principal autor da revisão, ao ScienceDaily.
O que os pesquisadores encontraram no vapor
Os cigarros eletrônicos aquecem líquidos com nicotina e geram aerossóis inaláveis. Essa névoa pode carregar substâncias associadas ao câncer, incluindo compostos orgânicos voláteis e metais liberados pelas bobinas de aquecimento.
A revisão também reuniu marcadores biológicos em pessoas. Esses sinais indicam dano ao DNA, estresse oxidativo e inflamação em tecidos.
Nos estudos com camundongos, pesquisadores observaram tumores nos pulmões. Em testes de laboratório, células apresentaram lesões e alterações em processos biológicos ligados ao desenvolvimento de câncer.
A força da análise é que diferentes tipos de evidência apontaram para a mesma direção, mesmo sem décadas de acompanhamento populacional.
O risco aumenta quando vape e cigarro andam juntos
Outro ponto que preocupa os autores é que muitos usuários que recorrem ao vape para parar de fumar mantêm o cigarro tradicional na rotina.
O coautor Freddy Sitas chamou esse cenário de “limbo do uso duplo”. A pessoa não abandona o cigarro e também não larga o vape.
A revisão cita evidências epidemiológicas recentes dos Estados Unidos. Pessoas que fumam e usam cigarro eletrônico teriam risco quatro vezes maior de desenvolver câncer de pulmão.
Esse dado não resolve todos os detalhes da causalidade, mas, ainda assim, ele reforça o alerta para quem acredita que o vape reduz danos automaticamente.
A comparação com a história do tabaco
Os pesquisadores veem um paralelo com o cigarro comum. A ciência levou décadas para consolidar o tabaco como causa de câncer de pulmão.
Os primeiros sinais ligaram o fumo a doenças infecciosas, problemas cardiovasculares, derrame e câncer. Muitos alertas perderam força até o relatório histórico de um cirurgião-geral dos Estados Unidos, em 1964.
Sitas resume o risco de repetir esse atraso com os cigarros eletrônicos. “Eles surgiram cerca de 20 anos atrás. Não devemos esperar mais 80 anos para decidir o que fazer.”
Por isso, a mensagem é menos sobre pânico e mais sobre prudência. O vape com nicotina não deve entrar na rotina como produto inofensivo, principalmente entre jovens e usuários duplos.
Por: Hemerson Brandão


