quinta-feira, 23 abril, 2026
HomeTECNOLOGIAConheça o detox digital que pode reverter 10 anos de danos por...

Conheça o detox digital que pode reverter 10 anos de danos por uso de redes sociais

Estudo aponta que o bloqueio ao acesso à internet no celular por duas semanas é capaz de melhorar sintomas de depressão, ansiedade e insônia

Pausas de apenas duas semanas no uso de smartphones são capazes de reverter o equivalente a dez anos de declínio cognitivo relacionado à idade e ao uso abusivo de redes sociais, segundo um estudo publicado na revista científica PNAS Nexus. A pesquisa, conduzida com 467 participantes com idade média de 32 anos, registrou melhoras em sintomas de depressão superiores às observadas com antidepressivos e comparáveis às alcançadas pela terapia cognitivo-comportamental. As informações são do The Washington Post.

Durante 14 dias, os participantes usaram um aplicativo para bloquear o acesso à internet no celular, mantendo apenas ligações e mensagens de texto. O tempo online caiu de 314 para 161 minutos diários. Ao fim do período, os pesquisadores registraram melhoras expressivas em atenção sustentada, de magnitude semelhante à de 10 anos de declínio cognitivo relacionado à idade, além de benefícios para a saúde mental e bem-estar geral.

Dois resultados adicionais surpreenderam os autores: mesmo participantes que descumpriram parcialmente as regras apresentaram benefícios, e os efeitos positivos persistiram após o fim do experimento.

“Não é preciso se restringir para sempre. Uma desintoxicação digital parcial, mesmo que por alguns dias, parece funcionar”, disse Kostadin Kushlev, professor de psicologia da Universidade de Georgetown e coautor do estudo.

Os achados convergem com outras pesquisas recentes. Um estudo de Harvard publicado no JAMA Network Open com quase 400 participantes registrou, após apenas uma semana de uso reduzido, quedas de 16,1% nos índices de ansiedade, 24,8% nos de depressão e 14,5% nos de insônia.

Os pesquisadores também diferenciam o uso de internet pelo celular do uso pelo computador, sendo o primeiro significativamente mais prejudicial. Segundo Kushlev, o uso pelo smartphone tende a ser mais compulsivo e fragmentado: a pessoa pode estar nas redes enquanto caminha, janta ou conversa, piorando a qualidade de todas essas experiências simultaneamente.

“Mesmo um pouco de distração durante essas atividades reduz o que você poderia ter vivido em termos de qualidade, com conversas menos satisfatórias e relacionamentos menos satisfatórios”, afirma o pesquisador.

Os apontamentos das pesquisas ressoam a decisão de júris nos estados da Califórnia e do Novo México, nos Estados Unidos, em março deste ano, que condenaram a Meta e o YouTube a pagarem US$ 6 milhões em indenização a uma jovem de 20 anos que relatou ter desenvolvido ansiedade, depressão e distúrbios de sono após anos de uso intensivo das plataformas desde a infância. As empresas anunciaram que vão recorrer.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam que os efeitos não são uniformes. John Torous, professor de psiquiatria de Harvard, descreve o problema como um dilema mais complexo: “Para algumas pessoas, o uso é demais ou de menos, e para outras é a quantidade certa. Identificar quem é prejudicado por isso é muito importante.”

Os grupos mais vulneráveis identificados até agora incluem pessoas com tendência a se compararem excessivamente com as outras — especialmente em relação à aparência —, aquelas com sono prejudicado pelo uso noturno e quem recorre às redes para compensar o isolamento offline.

Um estudo de maior escala financiado pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, com 8 mil participantes em 23 países, está em andamento para mapear variações culturais nos efeitos do uso excessivo de redes sociais. Uma das hipóteses em investigação é que sociedades mais individualistas e competitivas tendem a registrar impactos mais severos. Os resultados são esperados para o início de 2027.

Por: Felipe Medeiros*

RECOMENDADOS

MAIS POPULAR