Grupo acusa o Google de expor crianças a AI slop e cobra fim da monetização desse conteúdo. Documento reúne assinaturas de especialistas, médicos e entidades.
Poucas semanas após ser condenado na Justiça dos Estados Unidos por projetar algoritmos que viciam crianças e adolescentes, o Google virou alvo de uma coalizão que pede o banimento de vídeos gerados por IA voltados a esse público. A carta, enviada nesta quarta-feira (1º/04), reúne mais de 200 assinaturas, entre especialistas em desenvolvimento infantil, médicos e entidades de defesa do consumidor.
O grupo acusa a plataforma de inundar as telas de bebês e crianças com lixo de IA (AI slop), conteúdo gerado em massa que costuma não ter revisão ou controle de qualidade.
O documento é organizado pela Fairplay, organização dos EUA contra o marketing infantil, e aponta que produtores de conteúdo estão usando IA para criar animações desenhadas especificamente para hipnotizar os espectadores mais novos e lucrar com a retenção de tela.
A carta, direcionada aos CEOs do Google, Sundar Pichai, e do YouTube, Neal Mohan, detalha que o consumo desenfreado desses materiais causa sobrecarga cognitiva nas crianças e prejudica os processos de aprendizados.
Segundo o documento, como o cérebro delas ainda está em formação, a barreira para diferenciar o que é real do que é ficção — desafio até mesmo para adultos — torna-se praticamente inexistente.
A coalizão argumenta ainda que o poder de retenção desses vídeos sequestra a atenção dos menores, substituindo o tempo que deveria ser gasto com sono e brincadeiras no mundo físico.
Quais são as exigências?
Para frear o problema, o grupo lista uma série de demandas ao YouTube. Os especialistas exigem que a plataforma proíba totalmente a hospedagem de conteúdo gerado por IA no YouTube Kids, além de banir do YouTube comum qualquer vídeo de IA classificado como “Conteúdo para Crianças”.
Eles também cobram o fim das recomendações algorítmicas de vídeos feitos por inteligência artificial para qualquer usuário menor de 18 anos.
Para o controle parental, o documento exige a criação de um botão nas configurações — desativado por padrão — que permita aos pais bloquearem completamente os resultados de IA, mesmo que a criança pesquise por eles.
Regras ineficazes
Os especialistas apontam, inclusive, uma falha nas diretrizes do YouTube no que diz respeito à monetização de conteúdo “sintético ou alterado”. As regras supostamente penalizam canais que produzem spam ou AI slop em massa. Entretanto, segundo a carta, avisos são inúteis para bebês e crianças em idade pré-escolar, já que, geralmente, não sabem ler.
A coalizão também critica o investimento do Google no estúdio de animação de IA Animaj, que foca na criação de conteúdo justamente para o público infantil. Na ocasião da compra, relembra a Bloomberg, um executivo do Google chamou o projeto de “um modelo para o futuro”.
Há poucas semanas, a revista científica Undark, financiada pelo MIT, revelou o crescimento desse tipo de conteúdo e alertou sobre situações que devem se tornar mais comuns com a manutenção deles no YouTube. A publicação indica que mesmo vídeos supostamente educativos costumam apresentar erros, e que os vídeos podem potencializar hábitos inadequados para as crianças.
Por: Felipe Faustino


