quinta-feira, 23 abril, 2026
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A inovação deixou de ter um centro?

Transformações estruturais raramente acontecem de um dia para o outro; elas se acumulam. Ecossistemas demoram a amadurecer, mas quando entram em equilíbrio, ou em desequilíbrio criativo, produzem saltos inesperados

Historicamente, sempre houve momentos em que diferentes regiões do mundo lideraram ondas específicas de inovação. Florença no Renascimento, Londres na Revolução Industrial, o Vale do Silício na era do software. Mas a lógica predominante era de concentração: poucos lugares exerciam grande influência durante longos ciclos. O resto do mundo acompanhava de longe, com algum atraso inevitável.

A ideia de que a inovação é multipolar não é nova. Ao longo das últimas décadas, vimos previsões sobre o “fim dos grandes centros”, o “surgimento de novos polos”, a “democratização da tecnologia” e a “ascensão do Sul Global”. Nem todas se confirmaram. Muitas ficaram no campo da promessa, ou no máximo criaram algumas exceções interessantes sem alterar o pano de fundo global. Por isso, surge uma dúvida: será que estamos mais uma vez diante de um sentimento ou, desta vez, uma transformação real está acontecendo?

O que observei no Web Summit, em Lisboa, reforçou essa percepção. Ver o PIX sendo citado como referência global no mesmo evento em que empresas chinesas exibiam avanços em IA e robótica mostrou que a inovação já não está acontecendo em um único local. Lembra mais um ecossistema em evolução constante. Em um ecossistema, a força não está em uma espécie dominante, mas na diversidade distribuída. São múltiplos ambientes, cada um com seus recursos, tensões e dinâmicas próprias, que se influenciam mutuamente. É uma rede viva, capaz de gerar mutações, adaptações e interações que não dependem de um único polo central.

Quando analisamos o cenário atual sob essa lente, alguns sinais chamam atenção. A circulação do conhecimento deixou de ser linear. A construção de produtos globais não exige mais estar fisicamente próximo de grandes centros. O capital busca problemas relevantes, não endereços. As infraestruturas tecnológicas abertas reduzem assimetrias que antes pareciam intransponíveis. Países que historicamente estavam na borda do mapa da inovação agora criam suas próprias fronteiras tecnológicas. Pequenos times conseguem competir com corporações, e o ritmo de experimentação global nunca foi tão intenso.

Ainda assim, existe um componente emocional nessa expectativa. Já ouvimos antes que a inovação se descentralizaria. Já ouvimos que o “próximo Vale do Silício” surgiria em dezenas de lugares e a maioria dessas previsões não se concretizou. Será que agora é diferente, ou estamos apenas repetindo um entusiasmo cíclico?

A resposta talvez esteja no ecossistema. Transformações estruturais raramente acontecem de um dia para o outro; elas se acumulam. Ecossistemas demoram a amadurecer, mas quando entram em equilíbrio, ou em desequilíbrio criativo, produzem saltos inesperados. O que vemos hoje é um conjunto de condições que antes não existia: acesso ao conhecimento, infraestrutura global, talento distribuído e custos de construção que caíram drasticamente. A inovação, por necessidade e por oportunidade, passou a brotar em mais lugares ao mesmo tempo.

Se isso significa uma multipolaridade definitiva ou apenas uma nova fase ainda em teste, o tempo dirá. Mas há algo diferente no ar.

E é justamente neste espaço entre o quase, o ainda não e o talvez agora que a inovação acontece.

Por: Rogério Melfi

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