Pesquisa aponta que atividades criativas retardam o envelhecimento cerebral e podem se tornar aliadas da saúde pública
Engajar-se em hobbies criativos pode ser mais do que uma atividade prazerosa. Pode também ajudar a manter o cérebro jovem. É o que indica um estudo recente publicado na revista Nature Communications, que analisou dados de mais de mil pessoas em 13 países. A pesquisa foi tema de reportagem na Smithsonian Magazine, que enfatizou os benefícios neurológicos de atividades como dançar tango, tocar instrumentos musicais e até jogar videogame.
Segundo os pesquisadores, indivíduos que praticam regularmente atividades criativas apresentam sinais de envelhecimento cerebral mais lento. O destaque foi para os dançarinos de tango, cujos cérebros demonstraram ser, em média, sete anos mais jovens do que sua idade cronológica.
Como a pesquisa foi conduzida
A equipe utilizou modelos de aprendizado de máquina chamados de “relógios cerebrais” para comparar a idade biológica com a idade neurológica dos participantes. Posteriormente, aplicaram esses modelos a um grupo com diferentes níveis de envolvimento em atividades criativas, incluindo artistas, músicos, dançarinos e gamers.
Aqueles com maior dedicação às suas práticas criativas foram os que demonstraram maior diferença positiva entre idade biológica e cerebral. Mas mesmo os iniciantes colhem benefícios. “Você não precisa ser um especialista para se beneficiar da criatividade”, explicou Carlos Coronel, primeiro autor do estudo e pesquisador do Latin American Brain Health Institute, em comunicado citado pela Smithsonian Magazine.
Entre todas as atividades analisadas, o tango apresentou a correlação mais forte com a juventude cerebral. Segundo o neurocientista Agustín Ibáñez, da Universidade Adolfo Ibáñez, o impacto pode ser atribuído à complexidade da dança, que exige coordenação motora, planejamento e memorização de movimentos. Esses estímulos ativam diversas regiões cerebrais simultaneamente, favorecendo sua preservação.
A pesquisa também apontou que os maiores efeitos ocorrem na região frontoparietal do cérebro, área responsável por funções como resolução de problemas, memória de trabalho e planejamento, justamente uma das mais suscetíveis ao envelhecimento natural.
Videogames também entram na equação
Em outra parte do estudo, participantes foram treinados para jogar o game de estratégia StarCraft II durante cerca de 30 horas, distribuídas ao longo de três a quatro semanas. Comparados a um grupo de controle, que jogou um jogo menos complexo, os jogadores de StarCraft apresentaram melhora em testes cognitivos e indícios de menor envelhecimento cerebral.
Essa evidência reforça que o tipo de estímulo é tão importante quanto a atividade em si: quanto mais criativo e desafiador o envolvimento, maior o benefício observado.
Os autores defendem que os resultados podem ter relevância para a saúde pública, assim como exercícios físicos já são prescritos como forma de prevenção. “Talvez a criatividade também possa ser recomendada como estratégia de proteção cerebral”, afirmou Ibáñez, destacando a necessidade de políticas que valorizem práticas culturais e lúdicas em todas as faixas etárias.
A pesquisa propõe, assim, uma redefinição do envelhecimento saudável, que vai além de abordagens exclusivamente médicas. “Nossas sociedades precisam reimaginar o envelhecimento com saúde por meio de domínios como a criatividade, as artes e o brincar”, reforçou o cientista.
Por: Diogo Rodriguez


