sábado, 25 abril, 2026
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“Pensar como floresta”: por que imaginar futuros exige menos previsões e mais imaginação coletiva

Em palestra no KES Summit, realizado em Trancoso (BA), a futurista indiana Anab Jain defende um deslocamento de uma visão centrada no ser humano para uma política mais-que-humana, que considere rios, florestas e ecossistemas como agentes

Em palestra no KES Summit, realizado em Trancoso (BA), a futurista indiana Anab Jain criticou as visões artificiais e lineares do amanhã e defendeu novas formas de esperança baseadas em tempo circular, experiências sensoriais e inteligência ecológica.

Anab Jain, fundadora da consultoria Superflux, abriu sua fala no KES Summit com uma provocação: o futuro não pode ser reduzido às imagens frias e homogêneas de cidades azuis renderizadas em 3D, que prometem ordem perfeita e ignoram a vida real.

“Essas visões desconsideram o caos, a complexidade e a densidade das nossas relações humanas”, afirmou.

O tempo não é linear

Criada na Índia, Jain lembrou que muitas culturas enxergam o tempo de forma circular, conectando passado, presente e futuro como uma sequência contínua. Do Jainismo às cosmologias indígenas brasileiras, a contagem não se dá em segundos ou horas, mas nos ciclos das plantas, do sol, das estrelas ou do canto dos animais.

“Se mudarmos a forma como percebemos o tempo, mudaremos também como imaginamos o futuro”, disse.

Policrise e esperança

A palestrante chamou a atenção para o acúmulo de crises globais — climática, geopolítica, social e tecnológica —, que muitos chamam de “permacrise”. Citou Terence McKenna: “Vai ficar cada vez mais estranho, até que precisemos falar sobre o quão estranho está”.

Ao ser cobrada por executivos a oferecer visões otimistas, Jain respondeu: esperança não é fechar a janela enquanto a casa pega fogo. Para ela, a saída está em três passos: entender criticamente o problema, imaginar alternativas e agir de forma concreta.

“Pensar como floresta”

Segundo Jain, os modelos matemáticos e previsões falharam em antecipar crises como a inflação recente na Europa. A resposta estaria em “pensar como floresta”: enxergar interdependências entre sistemas sociais, econômicos, políticos e ecológicos.

Ela chama essa prática de “foresight entrelaçado” — um exercício de futuro que aceita pluralidade, múltiplas possibilidades e decisões complexas, como fez o Butão ao decidir ser carbono-negativo sem abrir mão do desenvolvimento.

O poder da imaginação

Para Jain, dados sozinhos são passado. O que move a ação são narrativas, protótipos e experiências.

Ela citou um exemplo marcante: em 2017, ao trabalhar com o governo dos Emirados Árabes, levou autoridades a sentir o cheiro de uma garrafa com ar poluído simulado do futuro. “Um fedor dispensa gráficos”, contou. O resultado foi um investimento de 163 bilhões de dirhams (R$ 242 bilhões) em energia renovável.

O apartamento do colapso

Outro projeto da Superflux levou 150 mil visitantes a um “apartamento do futuro” em Londres, ambientado em cenário de escassez alimentar e colapso climático. Ao cozinhar com algas e hortas improvisadas em meio a ruínas de tecnologia, os participantes experimentavam um possível amanhã — e refletiam sobre escolhas de hoje.

“Não é previsão. É um protótipo para confrontar medos e repensar nossas práticas”, disse Jain.

Do humano ao mais-que-humano

A futurista defende um deslocamento de uma visão centrada no ser humano para uma política mais-que-humana, que considere rios, florestas e ecossistemas como agentes.

Em parceria com o governo britânico, criou a Ecological Intelligence Agency, agência especulativa onde a IA “fala em nome dos rios”. Sensores no Tâmisa coletam dados ambientais e devolvem poemas gerados por IA para sensibilizar cidadãos e formuladores de políticas.

Uma prática cotidiana

Jain sugere que empresas e governos incorporem pequenas práticas para expandir a imaginação:

  • Mapear impactos de longo prazo de cada decisão;
  • Ampliar stakeholders, incluindo gerações futuras e o ambiente;
  • Usar experiências sensoriais no lugar de apenas relatórios e gráficos.

O espanto coletivo

Encerrando sua participação em Trancoso, Jain destacou a importância de recuperar a capacidade de se maravilhar coletivamente — seja diante de um arco-íris ou da primeira chuva depois de um período de calor intenso. Para ela, cultivar esse sentimento compartilhado de espanto pode abrir espaço para futuros de esperança.

Por Daniel Pinheiro — Trancoso, Bahia*

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