Plano de Ação de Inteligência Artificial dos EUA aposta em desregulamentação, infraestrutura e uso militar para consolidar liderança global na era da IA.
Com a promessa de inaugurar uma nova era de ouro para a economia e a segurança nacional dos Estados Unidos, o governo de Donald Trump lançou o Plano de Ação de IA da América. O documento detalha uma estratégia ambiciosa para consolidar o domínio americano em Inteligência Artificial (IA), estruturada em três pilares principais: aceleração da inovação, construção de infraestrutura, e liderança em diplomacia e segurança internacionais. Em tom competitivo, o plano deixa claro que a IA é vista não apenas como uma tecnologia transformadora, mas como um imperativo geopolítico.
“Quem tiver o maior ecossistema de IA estabelecerá padrões globais de IA e colherá amplos benefícios econômicos e militares. Assim como vencemos a corrida espacial, é imperativo que os Estados Unidos e seus aliados vençam esta corrida. O presidente Trump deu passos decisivos para alcançar esse objetivo”, destaca a introdução do documento. Segundo o governo, a liderança em IA será tão decisiva quanto foi a corrida espacial no século XX. A comparação não é casual: Trump defende que os EUA precisam “vencer a corrida da IA” para garantir seu lugar no topo da ordem mundial.
A era de ouro da IA
O documento frisa ainda que vencer a corrida da IA inaugurará uma nova era de ouro de florescimento humano, competitividade econômica e segurança nacional para o povo americano.
“A IA permitirá que os americanos descubram novos materiais, sintetizem novos produtos químicos, fabriquem novos medicamentos e desenvolvam novos métodos de aproveitamento de energia – uma revolução industrial. Ela possibilitará formas radicalmente novas de educação, mídia e comunicação – uma revolução da informação. E possibilitará conquistas intelectuais totalmente novas: desvendar pergaminhos antigos antes considerados ilegíveis, fazer avanços na teoria científica e matemática e criar novos tipos de arte digital e física – um renascimento”, diz o documento de 28 páginas.
Desregulamentar para avançar
Um dos principais eixos do plano é a remoção de barreiras regulatórias que, segundo a administração Trump, sufocam o setor privado e desaceleram a inovação. A Ordem Executiva 14179, assinada nos primeiros dias de mandato, revogou diretrizes da era Biden que, de acordo com o novo governo, impunham uma burocracia onerosa à pesquisa e ao desenvolvimento de IA.
A administração propõe, entre outras ações, atualizar as diretrizes de aquisição federais para garantir que o governo contrate apenas desenvolvedores de modelos de linguagem de ponta (LLM) que garantam que seus sistemas sejam objetivos e livres de preconceitos ideológicos.
IA como alavanca de emprego
Apesar do foco em inovação e competitividade, o plano também reconhece os impactos da IA sobre o mercado de trabalho. Por isso, ações coordenadas entre os departamentos de Educação, Trabalho e Comércio devem priorizar a requalificação da força de trabalho americana. A proposta é adaptar trabalhadores às novas funções que surgirão em uma economia impulsionada por IA, além de garantir que os benefícios econômicos da tecnologia cheguem às famílias.
Entre as iniciativas previstas estão o incentivo a programas de aprendizado técnico e profissional em IA, estímulos fiscais para empregadores que investirem na formação de seus colaboradores e estudos contínuos sobre os impactos da automação no mercado de trabalho.
“O governo Trump apoia uma agenda de IA que prioriza o trabalhador. Ao acelerar a produtividade e criar indústrias inteiramente novas, a IA pode ajudar os Estados Unidos a construir uma economia que ofereça mais oportunidades econômicas para os trabalhadores americanos. Mas também transformará a forma como o trabalho é realizado em todos os setores e ocupações, exigindo uma resposta séria da força de trabalho para ajudar os trabalhadores a navegar nessa transição”, frisa a proposta.
Infraestrutura e computação em larga escala
Para garantir a soberania tecnológica dos EUA, o plano prevê investimentos massivos em infraestrutura, como a construção de data centers de alta segurança e o incentivo à fabricação nacional de semicondutores. A proposta também inclui a criação de um mercado financeiro para computação em larga escala, inspirado nos modelos usados para commodities, que facilite o acesso de startups e pesquisadores a recursos computacionais avançados.
Além disso, o governo quer promover a adoção de modelos de IA de código aberto e peso aberto por pequenas e médias empresas, com o objetivo de democratizar o acesso, ampliar a transparência e fomentar a independência tecnológica americana frente a plataformas estrangeiras.
Aplicações militares e segurança nacional
Outro ponto central do plano é o uso da IA na defesa. O Departamento de Defesa (DoD) receberá recursos para implementar a tecnologia em operações militares e em funções administrativas, com ênfase na criação de centros de excelência, testes com sistemas autônomos e programas de capacitação específicos para militares.
O governo Trump também propõe ações para proteger inovações de IA contra ameaças cibernéticas, espionagem industrial e apropriação indevida por potências rivais, especialmente a China, cuja influência em organismos internacionais o plano promete combater diretamente.
Combate aos riscos da IA
Embora a proposta valorize a liberdade de expressão e rejeite regulamentações mais rígidas, o plano reconhece os riscos dos chamados “modelos de fronteira”, que são sistemas de IA mais avançados, e propõe medidas de segurança. Isso inclui avaliações rigorosas de desempenho e transparência, especialmente para aplicações em áreas sensíveis como saúde, defesa e justiça.
Consta no documento que “os sistemas de IA mais poderosos podem representar novos riscos à segurança nacional em um futuro próximo, em áreas como ataques cibernéticos e o desenvolvimento de armas químicas, biológicas, radiológicas, nucleares ou explosivas (CBRNE), bem como novas vulnerabilidades de segurança. Como os Estados Unidos atualmente lideram em capacidades de IA, os riscos presentes nos modelos de fronteira americanos provavelmente serão uma prévia do que adversários estrangeiros terão em um futuro próximo. Compreender a natureza desses riscos à medida que surgem é vital para a defesa nacional e a segurança interna”.
O documento também menciona o combate a deepfakes e outras mídias sintéticas nocivas, com destaque para a Lei TAKE IT DOWN, já assinada, e a proposta de desenvolver um benchmark nacional de avaliação forense de mídias geradas por IA.
Diplomacia tecnológica e influência internacional
O terceiro pilar do plano trata da geopolítica da IA. O governo propõe exportar modelos e tecnologias americanas para aliados estratégicos e impedir que adversários, como a China, dominem fóruns internacionais de governança tecnológica. A proposta inclui endurecer controles de exportação de semicondutores e computação de IA, além de buscar um alinhamento global em medidas de proteção e padronização tecnológica.
Os semicondutores, segundo o documento, estão entre as invenções mais complexas já concebidas pelo homem. Além disso, a proposta frisa que os Estados Unidos e seus aliados próximos detêm quase o monopólio de muitos componentes e processos críticos na cadeia de fabricação de semicondutores.
“Devemos continuar a liderar o mundo com pesquisas pioneiras e novas invenções na fabricação de semicondutores, mas os Estados Unidos também devem impedir que nossos adversários utilizem nossas inovações para seus próprios fins, de maneiras que comprometam nossa segurança nacional. Isso requer novas medidas para suprir as lacunas nos controles de exportação de produtos de semicondutores, juntamente com o reforço da fiscalização”, reforça.
Por: Jessica Chalegra


