Se o seu uso de IA poderia ser substituído por uma boa secretária ou por um analista júnior, você está desperdiçando a maior revolução tecnológica da internet
Se você já se pegou perguntando “e agora?” depois de uma palestra inspiradora sobre Inteligência Artificial, parabéns: você já chegou na fase pós-hype. Passado o boom das IAs generativas, onde todo mundo achava que estávamos prestes a testemunhar a revolução definitiva, o que temos? Um monte de empresas usando IA para… escrever e-mails um pouco mais rápido. E, claro, agora todo mundo consegue redigir um relatório de performance impecável (mas não necessariamente com uma performance impecável de verdade).
A ilusão da revolução instantânea
Toda grande tecnologia segue um ciclo clássico: excitação extrema, seguida por uma decepção proporcional e, depois, um amadurecimento, onde o real valor começa a ser extraído. Estamos exatamente na transição entre a decepção e a maturidade. No auge do hype, CEOs falavam de transformação digital como quem vende uma pílula mágica. Agora, a realidade bateu: a maioria das empresas implementou IA do jeito mais óbvio e imediato possível, automatizando tarefas banais.
Um estudo da McKinsey revelou que 75% das empresas que adotaram IA o fizeram para tarefas operacionais básicas, como geração de texto, atendimento ao cliente e análise de sentimentos de e-mails. Somente 10% estavam usando IA para redefinir modelos de negócio e produtos de forma disruptiva.
Outro relatório da PwC estima que a IA pode adicionar até US$ 15 trilhões ao PIB global até 2030. Mas aqui está a pegadinha: esse número só se concretiza se as empresas passarem da “IA para tarefas” para a “IA para estratégias”.
Do e-mail bonitinho à estratégia que importa
Se sua empresa só está usando IA para fazer o que um estagiário faria, você está fazendo errado. Se o seu uso de IA poderia ser substituído por uma boa secretária ou por um analista júnior, você está desperdiçando a maior revolução tecnológica da internet.
E o problema não é falta de informação. Nunca se falou tanto sobre IA. O SXSW, Web Summit, TED Talks e qualquer evento que valha o ingresso está repleto de especialistas (ou “Caio Ribeiros” da IA, como eu gosto de chamar – ótimos comentaristas, mas poucos jogadores de verdade). Líderes viajam, absorvem tendências, tiram selfies com autores de best-sellers e voltam para casa para… manter tudo exatamente igual.
IA virou um grande workshop sem acabativa. Inspirador no PowerPoint, mas sem real impacto no bottom line.
IA se comoditiza. O valor está no “o que fazer com ela”
Toda tecnologia passa pela comoditização. A eletricidade já foi uma inovação exclusiva para fábricas e aristocratas; hoje, é tomada de três pinos. Computadores pessoais já foram uma revolução de elite; hoje, são descartáveis. A IA vai seguir o mesmo caminho. Ferramentas de IA generativa estão cada vez mais acessíveis e embarcadas diretamente em softwares empresariais. E depois do Deep Seek virá outro Deep Seek mais potente e mais barato, e depois outro, e depois outro.
Ou seja: a vantagem competitiva não é ter IA, mas saber o que fazer com ela. E a maioria das empresas ainda não aprendeu esse jogo.
O diferencial não está em adotar IA, mas, sim, em integrá-la de forma estratégica. Dá para sair na frente de maneira diferente do que só escrever e-mails em inglês de forma mais rápida ou de ter os pontos de uma reunião transcrita em segundos.
O Shopify usa IA para personalizar recomendações de produtos e prever estoques. O Goldman Sachs criou modelos preditivos de risco que economizaram bilhões. A Netflix redefiniu sua estratégia de conteúdo e produção com base em IA preditiva. Você só vê o que você vê não por que sua personalidade é incrível, mas, sim, porque os caras usam IA para entender do que a sua personalidade incrível gosta.
Isso é bem diferente de só automatizar respostas de e-mail, certo? Se tem um erro fatal que as empresas estão cometendo é achar que podem esperar para ver aonde a IA vai dar. O problema é que o “amanhã” da IA chega muito rápido. Se você ainda está na fase de exploração, mas sem experimentação real, você já está ficando para trás.
E o que as empresas e pessoas devem fazer agora:
1. Pare de usar IA como um brinquedo e comece a usar como uma ferramenta de crescimento:
Se a única aplicação que você tem de IA é um chatbot para SAC, sinto muito, mas você só automatizou um problema. Comece a explorar modelos preditivos, otimização de processos complexos e IA para geração de novas fontes de receita.
2. Priorize estratégia antes da ferramenta:
Se sua única pergunta é “qual ferramenta de IA devo usar?”, você está começando do fim. A pergunta certa é: qual o problema real do meu negócio que a IA pode resolver melhor do que qualquer outro método?
3. Teste e erre rápido:
A IA se move rápido. Se você não tem um ciclo ágil de experimentação, está perdendo tempo. As empresas que mais colhem resultados com IA têm times dedicados a testar hipóteses continuamente.
4. Eduque sua liderança (e pare de pagar só palestras):
Se sua empresa ainda acha que inovação acontece em workshops isolados, prepare-se para ser ultrapassado. Não basta “entender de IA”; os líderes precisam saber aplicá-la na realidade do negócio.
5. Contrate pessoas que sabem fazer, não só falar:
Se a sua empresa só tem “especialistas em IA” que nunca implementaram nada de prático, você está na bolha do hype. O valor real está nos profissionais que sabem conectar IA com ROI.
Agora é a hora!
O hype passou, o jogo começou. As empresas que transformaram IA de um truque de produtividade em um motor de crescimento vão liderar o mercado nos próximos anos. As que ficarem só na automação de tarefas repetitivas vão se perguntar, daqui a pouco, por que ficaram para trás.
A boa notícia? Ainda dá tempo. Mas amanhã pode ser tarde.
Então, IAgora?
Se mexa.
Por: Eduardo Paraske, co-fundador e sócio da consultoria de inovação 16 01. Possui mais de 20 anos de experiência em empresas multinacionais, com forte background em marketing, gerenciou marcas, projetos de inovação e criou estratégias para diferentes produtos e categorias para empresas. Criador do canal “Elefante Limonada”, onde explora a inovação e a criatividade de maneira descontraída e leve.